“Para a Frelimo, nacionalista é aquele que matou!”
Vida e Lazer - Cultura
Escrito por Inocêncio Albino  
Quinta, 06 Dezembro 2012 16:46
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O célebre realizador moçambicano, Camilo de Sousa – que participa na cerimónia de homenagem póstuma ao nacionalista e intérprete da moçambicanidade, João Mendes, a realizar-se no dia 11 de Dezembro, em Maputo – cedeu uma entrevista exclusiva @Verdade, em que, além de exaltar o papel do nacionalista perecido recentemente, deplora a tentativa que se manifesta no país no sentido de apagar o seu nome da crónica oficial. Revela que o Governo de Guebuza faz dos moçambicanos “apóstolos da desgraça”, ao mesmo tempo que propala mensagens de acordo com as quais “está a combater a pobreza absoluta” quando, na verdade, “está a acabar com os pobres”...

Diz que se trata de verdades que se não forem vasculhadas poderão ser enterradas. Há uma pretensão mordaz em Moçambique – apagar da crónica oficial os nomes de determinados nacionalistas moçambicanos. João Mendes – que será sublimado na próxima Terça-feira, 11 de Dezembro, depois de ter encontrado a morte no dia 15 de Outubro – é uma das referidas pessoas.

Conforme Camilo de Sousa, vice-presidente da Associação Moçambicana de Cineastas, personalidades como João Mendes, Ricardo Rangel, Noémia de Sousa e José Craveirinha – que se evidenciaram através do movimento artístico e cultural na luta contra o sistema colonial português em prol da libertação nacional – não são tidos como nacionalistas no país. O motivo é o mesmo – no contexto da luta armada de libertação nacional – “não quiseram travar um combate bélico, o que fez com que se abstivessem do treinamento militar em Nachingweya”.

O que, em tudo isso, para si, é um grande contra-senso é o facto de – nas suas palavras – “o Camilo de Sousa que nasceu muitos anos depois de todos os demais – só porque foi aos treinos militares em Nachingweya – é considerado antigo combatente e, por essa via, nacionalista”.

Será a isso que Camilo de Sousa chamará de imbróglio. Ou seja, “o problema é que a Frelimo considera nacionalista aquele que matou muitas pessoas”.

Na leitura de Camilo de Sousa, o nacionalismo que presentemente se apregoa no país é muito ténue e parcial, muito em particular quando se toma em consideração que se define nacionalista como sendo a pessoa que participou na luta armada. Ora, isso traduz alguma contradição, uma vez que muito antes de 1964, ocasião em que começou a luta armada, pessoas como os irmãos Albazine – através de publicações como O Brado Africano – entre outras já manifestavam um espírito nacionalista. Ou seja, havia uma consciência de que se devia lutar contra o sistema colonial português.

Ora, “essa mentalidade e consciência serviu de base para a materialização de todo o processo libertário que se extremou com a realização da luta armada. É que, à sua maneira, eles, os Albazine, Noronha, Nogar, Rangel, Mendes fizeram o combate. Por essa razão são importantes, mas no país não se fala deles. Tenta-se apagá-los. Obrigam as crianças a ler os seus poemas na escola primária, mas não dizem quem foram”.

Primeiros presos políticos

Sabe-se, porém, que na década de 1940, João Mendes, Noémia de Sousa e Ricardo Rangel foram os primeiros presos políticos moçambicanos pelo sistema colonial português por causa do seu espírito nacionalista.

Noémia de Sousa, por exemplo, “foi deportada e ficou em Paris entre 1950 e 1972. Por essa razão, ela abrigou os nacionalistas da Frelimo em França. O problema é que a Frente de Libertação de Moçambique possui uma memória muito curta, por essa razão, só se lembra das pessoas que estiveram em Nachingweya. Como eu, por exemplo, estive em Tanzânia então eles recordam-se de mim, mas esquecem-se da pessoa que me levou para lá – que foi a minha família – os pró-nacionalistas como o João Mendes”, refere.

Antipatias ideológicas

Camilo de Sousa refere que, desde o princípio, a Frelimo manifestou conflitos ideológicos com pessoas como João Mendes. Cita como exemplo o facto de ele – como Marcelino dos Santos – que é uma pessoa que apesar de ter sido combatente, também tem problemas ideológicos que o contrapõem ao partido no poder. “Não sou o único, somos muitos dentro da Frelimo com problemas desta natureza. Desde sempre foi assim”.

“Ela tratava a todos bem – não só para ajudá-los como militantes, mas acima de tudo como nacionalistas no seu percurso – no entanto, como ela não quis ir aos treinos militares na Tanzânia, quando regressou a Moçambique, depois da proclamação independência nacional, todos se haviam esquecido dela”, diz referindo-se à celebre poetisa moçambicana Noémia de Sousa quando vivia em França.

É neste sentido que se percebe que quando Noémia de Sousa considera – no livro do João, anexo ao Sangue Negro – que João Mendes é uma multidão e que, por isso, não se podia meter na gaiola, em parte, “estava a moldar a nossa história de nacionalismo que é diferente da de Angola e de Cabo Verde”. Como tal, “o que me parece importante na história de João Mendes é a maneira por meio da qual o seu comportamento social, com as suas pequenas grandes acções, contribuiu para a nossa construção social. Por isso, eu costumo dizer que o João Mendes é o deus de pequenas coisas. E foi assim que nós estruturámos Moçambique através destas pequenas acções”.

Determinadas fontes indicam que nos primeiros anos das independências das colónias portuguesas, havia um grande sentido de comunidade, entre os novos estados-nação que se estavam a formar. Porque tal sentido se corrompeu?

Camilo reitera que a disparidade ideológica de que alguns membros da Frelimo se ressentem não é actual e nem é um problema único de Moçambique. João Mendes, que participou no nacionalismo de quase todas as colónias portuguesas, viveu essa experiência.

“Ele é um homem dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Ele foi o homem que queria criar essa grande união entre as colónias e lutou por isso. Poucos lutaram pelo conjunto”, refere ao mesmo tempo que acrescenta que “digamos que o João Mendes, o Marcelino dos Santos e a Alda Espírito Santo, já perecida, de São Tomé e Príncipe, foram as poucas pessoas que pensaram pelo colectivo. Mas, infelizmente, hoje não se fala deles”.

De acordo com Camilo de Sousa, João Mendes foi amigo do primeiro presidente do MPLA, Mário de Andrade, que foi professor na Universidade Eduardo Mondlane. Sucede, porém, que de Andrade também não estava de acordo com a visão ideológica do MPLA e, por isso, afastou-se do movimento na mesma época que o João se desvinculou da Frelimo.

Temos o país que não queríamos

De Sousa leva a sua opinião ao extremo, de modo que considera que “queríamos ter um país diferente e temos o Moçambique actual. Isso justifica-se com base em motivos ideológicos, de pensamento, não no comunismo e capitalismo como se pode inferir. Há 50 anos, a razão ideológica da luta pela criação da nação moçambicana era o marxismo, mas a razão ideológica de João Mendes era o bem-estar social das pessoas, do povo”.

Essa era a razão ideológica “porque lutei também, mas quando percebi que o meu país tinha razões ideológicas diferentes dessa, ou seja, que a fundamentação da luta pela libertação de Moçambique divergia com tudo o que me estimulou a combater saí da Frelimo. Expliquei-lhes que os meus ideais não eram aqueles”.

Ou seja, “eu não posso obrigar o meu filho a ser membro da Frelimo para ter emprego. Se a minha filha não for membro da Frelimo não consegue trabalho em Moçambique, nem pode ter uma bolsa para estudar. Então, é preciso pensar nisso”.

Ou seja, “o sentido de comunidade está a ser corrompido porque as pessoas deixaram de ter qualquer relação com a nação. O país transformou-se numa coisa que se chama pobreza absoluta. Dizem que é preciso acabar com a pobreza absoluta, mas na realidade o que se faz é acabar com os pobres. Eles matam os pobres. Põe-nos cada vez mais pobres para morrerem, de modo que se possam impor os homens ricos e poderosos – como temos estado a ver”.

 

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Actualizado em Quinta, 06 Dezembro 2012 17:20
 
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