“Eu era um artista melancólico”
Vida e Lazer - Cultura
Escrito por Inocêncio Albino  
Quinta, 06 Dezembro 2012 18:13
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Cansado de prometer e não cumprir – o que, em parte, gorou as expectativas dos seus admiradores e fãs – o músico moçambicano, Sérgio Muiambo, prefere que a publicação do seu primeiro trabalho discográfico aconteça de acordo com “as leis da natureza”. No entanto, enquanto isso não suceder, o artista não pára de evoluir. Aliás, até já abandonou a sua melancolia...

Existe algo fenomenal nas famílias Chopi, a inexplicável existência de, pelo menos, um membro com um pendor para as artes, com particular destaque para o canto e a dança. São estas as manifestações artísticas que, em certo grau, denunciam a riqueza cultural do povo criador da Timbila.

A par disso, no início da fase de pessoa adulta, Sérgio Muiambo ouvira recorrentes vezes os seus parentes e próximos “acusarem-no” de que já na infância revelava uma assinalável sensibilidade para o canto e a dança. É como se existisse uma deusa a inspirar os seus adoradores para a arte de cantar.

No caso de Muiambo não foi diferente. Mwamuguelecho – como se chamava a sua avó, esta intérprete e compositora perecida – pode ter sido o alicerce da origem do artista Sérgio. “Creio que terá sido esse um dos elementos que me influenciaram a enveredar pelo mundo da música”.

Nos princípios de 1990, altura em que conheceu colectividades que, de forma um pouco sistematizada, realizavam eventos culturais Sérgio começa a praticar Ngalanga – uma dança tradicional – até que descobriu que podia criar a sua guitarra usando latas. “Comecei a compor algumas músicas, de modo que se deu assim a minha origem como intérprete e compositor”, recorda.

Imediatamente, o impacto da sua produção artístico-musical valeu-lhe que fosse considerado “um apóstolo da moralização” da juventude. Granjeou simpatias de pessoas adultas, incluindo alguns líderes religiosos, e passou a actuar nas Igrejas.

A caminho das estrelas

O artista narra que, depois de 1995, altura em que passou a residir em Maputo, comprou a sua primeira guitarra convencional, decorria o ano de 1998. Mas só em 2000 é que se deu um evento significativo na sua carreira.

Foi em direcção “A Caminho das Estrela” – um programa de entretenimento cultural apresentado por Vítor José, na Televisão de Moçambique – onde se sagrou um dos vencedores. Além dos benefícios materiais, o impacto da sua participação no certame foi a popularidade que ganhou no circuito dos eventos culturais realizados em Maputo, o que galvanizou a sua carreira.

Por várias vezes, enquanto vivia em casa dos seus familiares, foi inibido de sair à noite para realizar concertos. Aliás, esta tentativa de coarctar a evolução da sua carreira, que se confunde com excesso de zelo, iniciou na província de Inhambane, a sua terra natal. “Recordo-me de que quando perdi a minha mãe para a morte, a minha vinda a Maputo foi um processo melindroso porque não me permitiam que me deslocasse com a minha guitarra de lata. A minha tia não admitia que em assim procedesse. Ora, eu também não sei o que me deu na cabeça, mas eu disse-lhe que sem a minha lata não me deslocava para a cidade”.

Em Maputo não foi diferente. “Várias vezes tive de fugir. Comecei a ganhar liberdade quando passei a viver sozinho. De qualquer modo, penso que se tratou de um fenómeno experimentado por qualquer pessoa que se queira afirmar como artista”, diz.

Ritmos africanos

Na sua música, Sérgio Muiambo canta a sua cultura utilizando, essencialmente, a língua Chopi, sendo que ao nível dos ritmos se inspira na Madjika, bem como nas danças Ngalanga, Makhara, Tchopo, incluindo Kwassakwassa e Funk, não obstante o facto de as pessoas apelidarem a sua música de Afrobeat.

Quando se lhe pergunta que ritmo é que – na sua arte musical – explora, devido às múltiplas influências que possui, Sérgio Muiambo responde com muitas reservas. Mas um ponto de partida pode ser o reconhecimento de que “aprecio imenso a música da Salif Keita. Penso que, na busca de produzir uma música diferente, acabei por cair num estilo musical que se aproxima à arte de Lukua Kanza – que é uma pessoa cujas obras só conheci em 2009. Muitas pessoas, nas comparações que têm feito em relação ao meu timbre vocal, testemunham isso. Nessa época eu já tinha nove anos de carreira. Então, não posso afirmar que ele é o meu ídolo. Trata-se de um artista cujas pegadas – embora de forma inocente e ignota – tenho estado a seguir”.

Internacionalizar a música

Nos dias actuais, geralmente, os artistas, mesmo os moçambicanos, – e Sérgio Muiambo não é excepção – sentem-se impelidos a internacionalizar a sua música. Será esse factor que move o músico a misturar a sua produção musical com outros ritmos internacionais, bem como cantar nas línguas bem posicionadas no panorama internacional. Seja como for, “sinto-me mais à vontade quando canto na minha língua africana, o Chopi, incluindo os ritmos da minha comunidade”.

Durante muito tempo, Sérgio Muiambo praticou danças tradicionais. Talvez seja por essa razão que o seu corpo maduro, muitas vezes, não resiste ao ritmo da música que ele produz. O que sucede depois é que a dança se manifesta nas pessoas que demandam o seu show, por um lado. Por outro, ainda que o artista nos dê essa explicação, isso contrasta porque, invariavelmente, Muiambo realiza concertos em espaços intimistas, perante um público mais interessado em escutar a música.

Sobre o assunto, o artista que interpreta “Jindji Jindji” – o primeiro álbum de Cheny – o tema de amor “Hidzumba Hotselele”, o mesmo que “Vivendo Consigo”, mostra-se reactivo: “consigo controlar-me. Toco música para as pessoas ouvirem. Tenho composições que se adequam a quaisquer contextos”.

Um eterno sonho

Ao longo dos anos, Sérgio Muiambo tem tido a oportunidade de trabalhar com vários artistas. Cheny Wa Gune, Cremildo Caifaz, Jomalu e Deodato Siquir são alguns exemplos. Em relação aos dois primeiros, participou nos seus álbuns como intérprete de pelo menos uma música.

Sabe-se, porém, que ao longo do ano 2009 Jomalu possuía um plano de promover (novos) artistas talentosos em Moçambique, como é o seu caso, apoiando a publicação dos seus álbuns. O que sucedeu – para se responder às razões de tal projecto em relação a si não ter sido concretizado – é que, para Muiambo, esta ideia era análoga à de Rui Martins. “Em virtude de ter percebido que havia a possibilidade de aprender algo adicional, acabei por ficar com o segundo. Por isso, o disco não foi publicado”.

Ou seja, “apesar de eu reconhecer que a minha relação com Jomalu goza de boa saúde, com Rui Martins aprendi muitos aspectos sobre a música: eu era um artista melancólico, fechado para mim mesmo. A minha música possuía determinadas qualidades que eu não conseguia explorar nos concertos, o que depois do contacto com Martins melhorou. O Rui Martins é que se responsabilizou pela produção do show man que sou”.

Refira-se que, nos seus concertos, Sérgio Muiambo arrasta uma multidão de fãs e admiradores constituídos por cidadãos nacionais e estrangeiros. Por exemplo, em relação ao segundo grupo – sem ignorar o primeiro –, desde 2008, este vem-lhe exigindo a publicação do seu primeiro trabalho discográfico. “Naquele ano prometi-lhes, mas quando nos anos seguintes vieram a Moçambique não encontraram o disco, por isso ficaram desiludidos comigo”.

É verdade que “o sonho de qualquer artista é publicar o seu trabalho. Aliás, muitas vezes, nós os músicos – guiados pela emoção de um concerto bem-sucedido num determinado dia – temos tido a presunção de afirmar que iremos publicar o melhor álbum de todos, o que não tem sido assim. Então, não posso prometer a publicação do meu disco para breve, mas estou a trabalhar nesse sentido”.

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