Escrito por Emildo Sambo  
Quarta, 03 Janeiro 2018 07:51
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Zófimo Muiuane, acusado de assassinar a sua esposa, Valentina Guebuza, com recurso a uma arma de fogo, na noite de 14 de Dezembro de 2016, fechou o processo de audiência, discussão e julgamento da mesma forma que o iniciou: com lágrimas. Ele chorou copiosa e soluçantemente, refez as juras de amor à sua consorte, alargou-as à família da mesma e alegou que tudo o que se diz em torno da sua pessoa e do seu ruído casamento não passa de um conluio para prejudicá-lo. Porém, não esclareceu por que motivo.

Com o seu sogro, Armando Guebuza, sentando no banco de trás, a menos de dois metros, o réu, tentando comover e convencer a juíza Flávia Mondlane de que ele é inocente, disse, sem ser específico, que alguém instrumentalizou Valentina Guebuza, porque invejava o seu matrimónio. “O meu casamento sempre criou inveja”, mesmo antes de acontecer.

Zófimo Muiuane afirmou ser difícil acreditar nas acusações que pesam sobre si. “É maldade”, dos declarantes e peritos, conforme disse o seu advogado, no dia das alegações finais [29/12/2017].

Refira-se que um dos três defensores do réu, Amadeu Uqueio, mostrou-se igualmente insatisfeito com a acusação do Ministério Público (MP), sobretudo com os laudos dos peritos da criminalística e da medicina legal.

“Vai faltar elemento fundamental para a tomada de decisão final (...)”, pois “uma versão criminalística perfeita devia ter seguido os exames completos” que auxiliaram o tribunal a produzir prova, mas, no caso em concreto, não foi o que alegadamente aconteceu. “Houve maledicência por parte dos peritos criminalística”.

“Meritíssima, perdi a minha esposa que tanto amava (...). Todos sabem disso. Mas dizer que eu pedia à minha esposa informações sobre os negócios da família, não faz sentido”, disse Zófimo, acrescentando que tudo o que se pode desejar saber sobre os negócios da família presidencial é encontrável na internet, nos jornais e em revistas.

“Independentemente do que venha a acontecer no futuro, eu continuo a amar a família da minha esposa e sempre amarei. Todos sabem”, afirmou Zófimo Muiuane, acrescentando que para ter praticado tantas coisas ditas sobre a sua pessoa, “talvez teria 80 anos de idade para ter feito tudo isso”. Na altura em que o réu proferia as últimas palavras antes do veredicto final, que será conhecido a 23 de Janeiro corrente, Armando Guebuza olhava para o ex-genro pelas costas e com um semblante de dor e pesar.

Zófimo continuou: “não faz sentido, nem é possível que eu diga que o sobrinho (Osvaldo Nhanala) da minha esposa era sua amante. Eu não permitiria que ele viajasse com a minha esposa. Há muita maldade (...)”.

“A perda da minha esposa supera a família. Alguém hipotecou a mente da esposa. Alguém meteu minhocas na cabeça da minha esposa”, disse Zófimo, em prantos, e ajuntou que tudo o que se diz sobre ele, sua consorte e casamento “é fabricação”.

Relativamente à mensagem anónima sobre o mau momento que o casal vivia – difundida e debatida nas redes sociais – o réu alegou que o mentor se encontrava na sala onde se julgava o processo nº. 01/2017/10ª Secção do Tribunal Judicial da Cidade Maputo (TJCM).

Prosseguindo, Zófimo tentou comover e convencer a juíza Flávia Mondlane com a suas lágrimas dizendo que “o coração da pessoa” que forjou e veiculou a aludida mensagem pulsou forte no momento que ele se referiu a ela, de tal sorte que independentemente da distância que separava a ele e o indivíduo que acusa foi possível sentir as vibrações. “Não vou dizer quem é”.

Num outro diapasão, o arguido considerou que cabe às autoridades policiais descobrir a pessoa que devassou a sua vida e causou a intriga que acabou custando a sua liberdade. De acordo com ele, é a mesma pessoa que vasa informações sobre alguns processos na Procuradoria-Geral da República (PGR).

Solícito e dedicado mas violento

Por sua vez, a defesa da família da vítima, a relação entre Zófimo e Valentina foi gerada no meio de muita desconfiança entre familiares e amigos, por causa da reputação menos boa do réu. Este “mostrava-se solícito, dedicado e devoto à esposa e família”.

“Aos olhos de muita gente o casamento de ambos pareceu sempre um mar de rosas, quando, de facto, passava momentos críticos e, de certa forma, com evidências de elevados e doentios ciúmes e actos de violência doméstica praticados pelo réu”, disse Alexandre Chivale, nas alegações finais. De acordo com o advogado, é disso prova o facto de não se conhecer, nos vários círculos de convívio do casal, algum episódio que ilustrasse alguma violência ou desconforto causado pelo arguido, que em público era um autêntico cavalheiro.

“Uma máscara que durou pouco mais de um ano, quando os primeiros sinais de uma personalidade perturbada e calculista vieram à ribalta”.

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