Escrito por Emildo Sambo  
Quinta, 14 Fevereiro 2019 07:12
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Após 26 anos do fim da guerra civil em Moçambique, também conhecida como a “guerra dos 16 anos”, várias mulheres seguem perturbadas, com sequelas físicas e psicológicas, sem meios de subsistência e tão-pouco perspectivas de futuro. Pior, a sociedade exclui-lhes, não obstante o Governo estar a promover formas de protecção das mulheres, estímulo à sua emancipação e observância dos mesmos direitos e deveres relativamente aos homens, refere uma pesquisa lançada terça-feira (12), em Maputo.

Durante a guerra em questão, as mulheres foram sujeitas a várias torturas e humilhações. Elas eram “molestadas, ameaçadas e obrigadas a fornecer mantimentos aos guerrilheiros”.

Elas Foram igualmente, e muitas vezes, submetidas “à servidão, à obediência e obrigadas a seguir a marcha. Noutras situações eram violentadas e mortas. As mulheres solteiras ou meninas eram mais preferidas e mais desejadas para serem capturadas”.

O estudo, intitulado “Impacto do Conflito Armado na Vida das Mulheres e Raparigas em Moçambique”, tem 86 páginas e frisa que as vítimas sofrem de forma permanente a interrupção de “um futuro que nunca chegou”.

“Fui capturada para servir as forças de defesa da soberania naquela famosa operação/campanha tira camisa e já tinha 12 cabeças de gado. Se não tivesse sido capturada já teria muitos bens”, relatou uma das entrevistadas aos pesquisadores e queixou-se da falta apoio “para mim e a minha família. Estamos todos entregues à nossa sorte”.

Ela assegurou que não tem absolutamente nada e não consegue esquecer a guerra. No ano passado, “fiz a 12ª. classe já adulta, mas muitos dos meus companheiros não têm essa possibilidade porque não vivem na vila-sede”.

Uma outra vítima narrou que o seu marido era militar e juntos tinham seis filhos, todos assassinados, um a um, na sua presença. “Eu vi todos a serem mortos”.

A crueldade dos guerrilheiros foi de tal sorte que a mulher teria sido forçada “a fazer sexo” com o marido na presença os seus opressores. “Não conseguimos”, o que deixou os bandidos armados irritados. Na circunstância, eles amarraram o esposo e “violaram-me enquanto riam e zombavam do meu marido”.

“Naquele dia eu queria morrer, mas vivi para ver morrer aqueles que mataram meus filhos. Fui violada por um bando de soldados até minha vagina inchar, sangrar e não conseguir andar, fui encontrada dois dias depois por civis que passavam por ali. Eles violavam e depois enfiavam faca, pedrinhas, ferro, qualquer coisa que estivesse próxima”, disse a vítima.

O estudo, da autoria de Advogados Sem Fronteiras Canadá (ASFC), em parceria com Associação Mulher, Lei e Desenvolvimento (MULEIDE) e o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CEEI/ISRI), foi realizado nas províncias de Nampula, Zambézia, Sofala e Gaza, totalizando 16 distritos. O mesmo envolveu 245 vítimas diretas e indiretas do conflito.

As entrevistadas reivindicam acções que garantam o direito à educação para os seus descendentes e acesso a projectos de geração de renda que permitam reduzir o impacto das privações económicas a que estão expostas, segundo os investigadores. Estes observam que em 1992, assim como em 2014, “os esforços para a construção da paz não envolveram a dimensão das vítimas e nem dos direitos humanos”.

Aliás, com o fim do conflito armado, em 1992, os moçambicanos acreditaram que “o retorno a guerra seria impensável, devido à experiência de vários anos de violência e a inexistência de patrocinadores que pudessem reactivar a Renamo”.

Adicionalmente, a adopção do sistema multipartidário, que permitia a canalização das reivindicações populares para os partidos da oposição e a implementação de um sistema democrático, que permitia a corrida eleitoral entre os vários partidos, criava as bases propícias para a consolidação da paz no país.

Porém, mais de duas décadas depois da assinatura do Acordo Geral de Roma, o conflito armado ressurgiu, entre 2012 e 2016. “(...) A necessidade do perdão e do reconhecimento dos horrores cometidos durante a guerra têm sido sistematicamente ignoradas abrindo espaços para uma nova etapa de acumulação de velhas e novas violências, de velhas e novas inseguranças que, ao serem ignoradas constituem formas embrionárias de um novo pré-guerra”, alude o relatório.

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