A triste sina de um adolescente que só pode calçar um sapato
Destaques - Nacional
Escrito por Nelson Carvalho  
Quinta, 06 Dezembro 2012 18:35
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Edgar Bugil, de 17 anos de idade, reside no bairro de Mutauanha, arredores da cidade de Nampula. Vive na incerteza por causa de uma deficiência no pé direito. Não se sabe ao certo de que doença se trata. Quando criança, foi submetido a algumas cirurgias mas nenhuma melhora conheceu até agora. No ano passado recusou-se a ser amputado porque o seu sonho é um dia voltar a calçar sapatos e não ser discriminado pelos colegas de escola ou por outras pessoas de má-fé.

Nos dias de muito sol o menino passa mal e não se locomove devidamente porque tem muitos cortes, e profundos, nas extremidades e na planta pé. Confessou que por diversas vezes frequentou algumas igrejas que alegadamente promovem curas milagrosas, mas até agora sem nenhum sucesso.

O pé está a inchar á medida que o tempo passa. Apesar da deficiência, Edgar Bugil é um adolescente alegre. Leva uma vida normal. Dia após dia, ele procura manter-se em forma, praticando algumas actividades físicas como o trote (corrida lenta) no recinto do Jardim de Destacamento Feminino. Dedica-se ainda a alguns ensaios musicais. A sua maior preocupação é conseguir ultrapassar a deficiência que o apoquenta. Em conversa com o @Verdade, Edgar afirmou que viver naquela situação não é diferente da morte porque, muitas vezes, é impedido de praticar uma certa actividade ou mesmo de participar em festas ou convívios.

Quando criança vivia com os seus pais. Aos 15 anos de idade, isto é, em 2010, os progenitores separaram-se devido a problemas que o adolescente não sabe explicar. Mas suspeita que uma das razões seja a sua deficiência. Neste momento vive com o seu irmão mais velho. Assegurou-nos que a partir desse tempo a sua vida mudou para o melhor. Recebe cuidados médicos regularmente – o que não acontecia outrora – não obstante o tratamento da doença de que padece exigir mais do que o irmão pode.

Segundo nos contou, esteve internado durante dois meses no Hospital Central de Nampula. Ingeriu diversos fármacos enquanto estava em constantes observações médicas, mas sem nenhuma melhoria assinalável. Passado algum tempo, os especialistas da Saúde concluíram que a única solução era amputar o seu pé. Porém, Edgar contrariou os médicos com a sugestão de que fossem amputados apenas os dedos. “Recusei porque iria ficar dependente da muleta, uma vez que consigo andar, correr e jogar futebol com os meus amigos”, disse para depois afirmar que o seu maior sonho é um dia poder calçar sapatos nos dois pés. Por isso, não vai permitir que lhe seja amputado o pé porque acredita na hipótese de um dia ficar curado.

Discriminação no bairro e na escola

Edgar Bugil queixou-se do facto de ser vítima de descriminação no bairro onde mora, e não só. Todavia, disse estar seguro e confiante de que um dia vai superar a deficiência que faz com que seja mal visto, sobretudo na escola. Por onde passa, a partir da altura em que reparam no seu pé não tiram dele os olhos. Atribuem-lhe nomes como polvo, cobra de três cabeças, entre outros adjectivos pejorativos. Outrora, ficava constrangido mas, com o tempo, habituou-se às troças. Encara a discriminação como algo normal na sua vida.

Ele frequenta a 8ª classe na Escola Secundária de Napipine. “Ouvir os meus colegas de escola zombarem de mim é uma situação que me deixa bastante triste”, disse com os olhos arregalados.

O que dizem o seu irmão e o pai?

O @Verdade procurou os familiares do adolescente para perceber como é que teria surgido a doença de que padece. Constatou que se trata de um problema de saúde hereditário, uma vez que o seu tio materno também teve o mesmo problema. Lourenço Bugil, seu irmão mais velho, disse que quando o rapaz nasceu não teve nenhum tratamento da medicina convencional, mas sim tradicional. A interpretação dos demais familiares é de que uma deficiência herdada não pode ser curada.

Lourenço Bugil explicou que há 17 anos que o seu irmão sofre, mas nenhum médico dos já consultados soube dizer de que doença se trata.

Bugil Lucupwanula, de 75 anos de idade, natural de Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado, Norte de Moçambique, é o pai do adolescente. Disse que não se separou da sua esposa devido à deficiência do seu filho, mas por questões sociais – que não especificou – que obrigaram a que se chegasse a tal situação. Ele é um dos que acreditam na ideia de que uma doença hereditária não tem cura.

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