Aldon Fumo: dez anos sem fala nem locomoção
Destaques - Nacional
Escrito por Coutinho Macanandze  
Quinta, 06 Dezembro 2012 19:00
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Aldon Eduardo Fumo, de 10 anos de idade, é como se chama a criança que sofre de uma doença chamada intrínseca aguda, diagnosticada aos quatro meses de vida. Reside no bairro Patrice Lumumba, arredores da cidade da Matola. O petiz, cujo infortúnio lhe tirou a oportunidade de se desenvolver como tantas outras crianças que, sem qualquer tipo de limitações, saltam à corda, gritam, jogam a bola e se divertem, não fala nem se locomove.

Intrínseca aguda é uma doença também conhecida por insuficiência renal aguda. Ocorre quando há um dano directo nos rins que, consequentemente, provoca uma perda súbita da função renal, ou seja, os rins deixam de filtrar os desperdícios do sangue. Trata-se de uma enfermidade causada por hemorragia, desidratação, insuficiência cardíaca, abuso de diuréticos e alguma infecção, necrose tubular aguda, glomerulonefrite e nefrite intersticial; todas estas anomalias são agudas ou graves.

Os sintomas são vários, tais como valores anormais nas análises à urina, hipertensão, perda de peso inexplicada, anemia, náuseas, vómitos, sabor metálico na boca, perda de apetite, falta de ar, dores no peito, dormência ou formigueiro, confusão mental, coma, convulsões, hematomas, comichão, fadiga, dores de cabeça, enfraquecimento ósseo, excremento castanho amarelado, retenção de líquidos, perturbações do sono e tantos outros.

Aldon está condenado à sua própria sina desde os primeiros dias de vida. Não teve uma infância como os outros petizes. A sua vida parou por causa da dita intrínseca aguda. Segundo os parentes do miúdo, houve também uma pouco de negligência médica, alegadamente porque não recebeu os tratamentos específicos da doença na altura em que foi ao controlo sanitário. Sob o olhar indiferente da sociedade, o menino vive isolado. Sofre de atraso no desenvolvimento mental, algo associado à sua deficiência física.

A sua mãe chama-se Helena Luís, de 35 anos de idade, e é membro da Polícia da República de Moçambique. Vive no bairro Patrice Lumumba e tem dois filhos, nomeadamente Aldon Fumo e Waysiling, este último de apenas dois anos de idade. Na reconstituição dos factos, consta que o pequeno Aldon veio ao mundo em 2002, altura em que a sua família se coloriu de alegria. Era um menino aparentemente sem nenhuma deficiência. Entretanto, ainda no hospital, com penas uma semana de vida, os médicos descobriram que ele padecia de intrínseca aguda. Ele não fala e nem se locomove. É dependente em tudo.

Nos primeiros meses de vida, segundo Helena Luís, que é viúva, já era visível o débil desenvolvimento físico do menino. A preocupação dos pais agravou-se ainda mais. O problema piora com a precária condição financeira da família. Ela recebe, mensalmente, 4.000 meticais, ordenado do qual 1.000 meticais paga a renda de casa e igual valor remunera a empregada que fica com o filho doente Aldon e o outro mais novo. Do remanescente ainda tira uma parte para pagar, em prestações, um terreno algures. No fim das contas, do seu salário apenas sobram 600 meticais para cobrir as necessidades básicas caseiras.

A dado momento da entrevista ao @Verdade, Helena Luís contou que a carrinha de rodas que Aldon usava antes já não lhe é útil porque o menino cresceu. Assim, para ir à fisioterapia, uma vez por semana, a mãe leva-o ao colo. “Se a fisioterapia fosse realizada em mais dias durante a semana, acredito que o meu filho teria melhorado bastante. A falta de dinheiro para comprar uma carrinha de rodas para se locomover impede-o de ir à escola”.

Visivelmente constrangida, ela desabafou que na altura em que o marido ainda estava vivo a vida não era tão difícil como agora. Aldon está condenado a sentar-se numa única posição, o que exige dele um grande sacrifício. Contou também ter pedido apoio aos Serviços Sociais da Polícia da República de Moçambique, mas até aqui só há promessas.

Enquanto isso, o Fórum das Associações Moçambicanas dos Deficientes, comovido com a situação daquela criança, criou condições para que Aldon pudesse aprender o abecedário na Escola Primária Completa de Singathela. Entretanto, Helena recusou o gesto alegando que não teria como garantir a ida do filho à escola sem um meio alternativo de locomoção.

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