Muatala: um bairro onde a pobreza impera
Destaques - Nacional
Escrito por Nelson Miguel  
Quinta, 06 Dezembro 2012 19:25
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Muatala, abandonado à sua própria sorte, é um dos mais antigos bairros suburbanos localizado a sul da cidade de Nampula, com uma população estimada em 45.412 habitantes. Tem uma taxa de desemprego acima de 60 porcento. Grande parte dos moradores dedica-se a actividades económicas informais, sendo uma camada da população constituída por mulheres, que no seu dia-a-dia produzem e vendem bebidas alcoólicas tradicionais, nomeadamente cabanga, e vinho de cana-de-açúcar e de caju. Praticam também a agricultura.

Muatala é limitado pelos bairros de Mutauanha e Central, e constituído por 10 Unidades Comunais, 198 quarteirões, dos quais a sua maioria não possui serviços básicos. Dos seus principais problemas destacam-se: o elevado desordenamento territorial, saneamento do meio precário, rede sanitária deficitária e o fornecimento de água potável e energia eléctrica a conta-gotas e sem qualidade.

Somente tem mercados informais, sendo o mais importante o 25 de Junho, vulgo Matadouro. Beneficiou, parcialmente, de obras de reabilitação no primeiro mandato do edil Castro Namuaca, que consistiram também na construção de um balneário e de um pequeno frigorífico que nunca chegaram a funcionar. O muro de vedação é outra questão, pois foi apenas construída uma parte.

Consome-se água dos rios e poços

Pode-se considerar Muatala um bairro castigado na componente de abastecimento de água potável, pois mais de 65 porcento da população obtém-na dos rios e poços. Apenas a zona urbana é que beneficia de água canalizada. Quanto mais se caminha para o interior do bairro, os serviços básicos ficam mais longe da população, o que torna o acesso a eles mais complicado.

As unidades comunais de Cossore, Maparra e Namuatho “B” são os mais críticos em termos de abastecimento de água. A população percorre mais de cinco quilómetros para conseguir um bidão de 25 litros. Os mais de 45 mil habitantes servem-se de apenas 46 fontenários, dos quais 38 operacionais e os restantes avariados. A maioria dos poços caseiros é de água salubre. As famílias ficam pelo menos uma semana sem ver aquele precioso líquido jorrar nas suas torneiras, o que leva a que se recorra ao rio com o nome do mesmo bairro, que nasce nos esgotos da zona de cimento.

Energia eléctrica sem qualidade

Segundo dados fornecidos pela Electricidade de Moçambique (EDM), Área Operacional de Nampula, mais de dois mil dos 45.412 habitantes têm acesso à corrente eléctrica da Hidroeléctrica de Cahora Bassa. Em Muatala, as únicas ruas iluminadas são as que se encontram asfaltadas.

A outra situação que provoca dores de cabeça à população é a má qualidade da própria corrente eléctrica. Por exemplo, na zona da Escola Primária Completa de Muatala Cossore, campo da Texmoque, Unidade Comunal Micolene e Namavi ocorrem cortes constantes no fornecimento. Alguns moradores asseguraram ao @Verdade que a energia eléctrica que consomem oscila sempre.

Dois centros de saúde para 45.412 habitantes

Muatala tem duas unidades sanitárias: o Centro de Saúde 25 de Setembro, anexo ao Hospital Psiquiátrico. Porém, devido à distância, grande parte dos moradores daquele bairro recorre aos médicos tradicionais.

A situação é mais difícil para as mulheres grávidas que chegam a dar à luz à beira das estradas. A maior parte dos residentes de Muatala prefere deslocar-se ao Hospital Central de Nampula, depois de ter procurado um centro de saúde mais próximo para as consultas.

Saneamento do meio precário

Muatala é um bairro que dispõe de um núcleo de combate ao lixo, cujo objetivo é manter a zona residencial limpa. “Trabalhamos para deixar o bairro sem lixo e o mais limpo de toda a cidade. O nosso principal foco é o rio Muatala, onde o fecalismo a céu aberto é uma realidade e a situação é dramática”, disse Agostinho Incaniço, chefe da Direcção Social de Muatala.

A cada ano Muatala tem sido fustigado por diarreias e cólera devido à precariedade de saneamento. O edifício onde funciona o Matadouro Municipal é um exemplo concreto de imundice. Naquele local de abate de animais a falta de higiene é gritante. Em todo o bairro faltam latrinas, quer feitas de material local, quer convencionais. Muitos populares recorram ao rio Muatala para satisfazerem as suas necessidades biológicas, contribuindo para a degradação do ambiente de higiene. As bermas do rio Muatala transformaram-se num depósito de excrementos humanos.

Algumas unidades comunais, embora estejam a sofrer descontos relacionados com a taxa de lixo, não beneficiam da recolha de resíduos sólidos. A poluição ambiental provocada por um cheiro nauseabundo proveniente de alguns aviários e da fábrica de rapé é outro problema que a edilidade deve resolver com urgência.

Vias de acesso deficitárias

Quase todas a vias de acesso do bairro de Muatala encontram-se em estado lastimável. As únicas ruas em boas condições são as da Solidariedade, dos Sem Medo, que desaguam no Posto Administrativo de Muatala, e um pequeno troço em direcção ao bairro de Mutauanha. Todas as outras são de terra batida.

Uma das estradas cuja reabilitação a população tem vindo reclamar é a que sai da zona militar até à fábrica da Cervejas de Moçambique, na Estrada Nacional número 1. As ruas de Moma e 3010, a que parte da Avenida de Trabalho e passa pela Central Eléctrica até à Rua dos Sem Medo são alguns dos exemplos de precariedade.

Recorde-se que no mandato prestes a terminar, o presidente do Conselho Municipal da Cidade de Nampula tinha como “plano número um” do seu manifesto eleitoral criar condições de habitabilidade e serviços básicos nos bairros, como corrente eléctrica, água canalizada, recolha de lixo, transporte urbano, estabelecimentos de serviços de saúde e melhoramento de estradas. Volvidos quatro anos, quase nada foi feito.

Educação: poucas escolas para 45.412 habitantes

Em relação às instituições do ensino, o bairro de Muatala possui três escolas secundárias públicas, uma privada, cinco primárias completas e duas de EP1. Além destas escolas, há ainda três creches comunitárias, das quais uma é pertença das Irmãs Mercedárias da Caridade e outra das Combonianas. Existe outra privada localizada na rua Filipe Samuel Magaia.

Um bairro com a fama de ser perigoso

Muatala tem a fama de ser um bairro perigoso. Só no presente ano já foram registados pouco mais de 1.500 crimes, entre assaltos a residências (furtos e roubos), violência sexual envolvendo mulheres e mortes de raparigas por estrangulamento. Neste bairro a criminalidade está em alta devido à existência de muitas barracas e locais de convívio nocturno que não observam as normas e a postura camarária, incluindo um elevado nível de consumo de álcool e drogas.

O @Verdade conversou com Abel Abreu, de 37 anos de idade, residente na Unidade Comunal Maparra. Ele afirmou que no período nocturno ouvem-se gritos nas residências ou nas ruas: são pessoas a serem agredidas por grupos de criminosos. “O meu bairro tem mais criminosos do que outra coisa”, desabafou.

Em relação ao aumento da criminalidade no bairro de Muatala, há quem avente a hipótese de ser um fenómeno que se deve à ausência da Polícia da República de Moçambique. O porta-voz desta corporação em Nampula, João Inácio Dina, disse à nossa reportagem que no bairro poderão ser construídos dois postos policiais nas unidades comunais de Muthita e Maparra, as mais propensas ao crime.

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