Mutauanha: um bairro “marginalizado”
Destaques - Nacional
Escrito por Cristóvão Bolacha  
Quinta, 18 Dezembro 2014 14:46
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Nos últimos dias, o bairro de Mutauanha, sito nos arredores da cidade de Nampula, transformouse numa zona de insegurança. O clima de tensão caracterizado por medo e intranquilidade causados pela onda de assaltos a residências e agressões físicas na via pública está a tomar conta dos moradores daquela circunscrição geográfica, dado que são obrigados a recolher logo que anoitece. Como forma de colmatar a situação, os agentes da Polícia Comunitária intensificaram patrulhas e algumas quadrilhas já foram desmanteladas.

Circular na calada da noite no bairro de Mutauanha tornou- se um acto de muita coragem. O novo fenómeno, que ganhou visibilidade nos últimos três meses, transformou as vias de acesso daquela zona residencial num campo de batalha onde as principais vítimas são os próprios moradores. Estudar no período pós-laboral tornou-se, igualmente, numa decisão de pessoas que dispõem de meios circulantes, com destaque para viaturas.

Segundo os moradores daquele bairro, a situação que se arrasta há bastante tempo está a agravar-se numa altura em que os agentes da Polícia Comunitária se encontram preocupados em reforçar o efectivo para garantirem a passagem de uma quadra festiva ordeira.

O @Verdade andou, em tempos, pelas artérias do bairro de Mutauanha, e ouviu moradores, dentre estudantes e agentes da Polícia Comunitária. “Já não vivemos dignamente aqui. Não podemos circular na calada da noite e, muito menos, sair para urinar temendo ser vítimas de espancamento. Hoje somos obrigados a recolher por volta das 19h00”, disse-nos um dos residentes com quem conversámos.

Dados fornecidos pela Polícia Comunitária dão conta de que, semanalmente, pelo menos três pessoas são vítimas de agressões físicas na via pública e cinco casas são assaltadas por indivíduos munidos de catanas, entre outros instrumentos. O caso mais recente deu-se na noite de sábado, 30 de Novembro, quando um grupo de indivíduos munidos de objectos contundentes agrediu fisicamente um cidadão que na altura regressava de um convívio com amigos.

Os meliantes apoderaram-se de telemóveis, documentos pessoais e cartões bancários. Durante a acção, a vítima, cuja identidade omitimos a seu pedido, contraiu ferimentos em consequência dos golpes perpetrados pelos malfeitores na altura em que o lesado tentava resistir ao saque dos seus pertences. “Apercebi-me de que estava diante de indivíduos de má conduta quando eles lançaram a catana contra o meu braço. Não tive outra opção senão entregar tudo o que tinha”, relatou.

Gritos de socorro provenientes da vítima chamaram a atenção dos membros do policiamento comunitário que se encontravam de serviço. A primeira intervenção foi de Carlos Rafael, que conseguiu neutralizar um dos delinquentes, mas, por sua vez, sofreu golpes com a catana. O ambiente tonou-se tenso e aquela zona residencial ficou em alvoroço, devido a uma forte troca de tiros entre os malfeitores e os polícias.

Com a ajuda de mais dois agentes de segurança do bairro de Muatauanha, o meliante foi imobilizado e, depois de agredido a pontapés e golpes de cacetete, encaminhado às autoridades policiais. De acordo com Carlos Rafael, chefe da Polícia Comunitária de Mutauanha, nos últimos dias, o trabalho de patrulhamento mereceu uma maior atenção e integração de pessoal para se responder minimamente ao actual cenário de agressões físicas.

Para fazer face à situação, aqueles agentes intensificaram as actividades nas vias de acesso consideradas críticas devido ao elevado número de casos registados. “Conseguimos chegar a tempo e quando os assaltantes aperceberam-se da nossa presença, puseram-se em fuga, mas neutralizámos um dos meliantes, por sinal o chefe da quadrilha”, disse Rafael.

Entabulámos mais uma conversa com uma estudante da Universidade Pedagógica (UP) Delegação de Nampula, identificada pelo nome de Zarina Jorge, de 24 anos de idade. Ela frequenta os estudos no período pós-laboral e não guarda boas recordações da vida académica depois de ingressar naquele estabelecimento de ensino superior devido às situações vividas.

A jovem foi uma das vítimas de agressões físicas que se consumaram nos últimos seis meses, e a acção ocorreu quando regressava da faculdade. O caso mais recente deu-se no mês de Outubro, em que indivíduos desconhecidos a interpelaram a escassos metros da sua residência situada no quarteirão 09, Unidade Comunal 1º de Maio, arredores do bairro de Muatauanha, onde, para além de ter sofrido golpes com recurso a catana, ela perdeu dois telemóveis e três mil meticais.

“Eram sensivelmente 20h00 quando percebi a presença de indivíduos desconhecidos durante a minha caminhada. Na altura, eu regressava da faculdade e, a escassos metros da minha residência, interpelaram-me e exigiram que eu desse tudo o que tinha”, afirmou.

Líderes comunitários preocupados com a inoperância da Polícia

O clima de insegurança caracterizado pelo medo no bairro de Mutauanha é o resultado da inoperância dos agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM) no combate ao crime. Portanto, o caso está a preocupar os líderes comunitários pelo facto de aquela circunscrição geográfica estar rodeada de dois postos policiais, nomeadamente de Muatala e da Faina.

Maria de Fátima Álvaro, chefe do quarteirão 09 do bairro de Mutauanha, mostra- se indignada com o facto de, em todas as auscultações à população, organizadas pela PRM em Nampula, se pedir a intervenção dos agentes da Lei e Ordem no combate ao crime naquela jurisdição mas, em contrapartida, nem água vai, nem água vem.

“Já não durmo cedo porque a minha neta estuda do período pós-laboral e com o elevado registo de casos de agressões físicas, ficamos preocupados quando ela demora a chegar à casa. Tentei pedir a intervenção da Polícia, mas esta nada faz para acabar com o problema”, lamentou.

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