Opinião - OBITUÁRIO
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Faleceu na madrugada desta terça-feira (16) na sua casa, na Goleã, terra que o adoptou, o moçambicano Ricardo Chibanga, o primeiro matador negro da história da tauromaquia. Tinha 76 anos de idade e tentava recuperar de um acidente vascular cerebral.

Chibanga nasceu pobre nos primeiros anos da década de 40. O pai trabalhava na conhecida pastelaria “Princesa”, lugar de referência da capital, e a mãe acompanhava-o na luta e sacrifício para criar os filhos. O sonho de toureiro contraiu- o, tal como uma doença, por volta de 1962, trocando definitivamente os pontapés na bola de trapos com Eusébio, Hilário, Coluna, Vicente pela muleta e capote encarnado.

Na Páscoa, no Ano Novo ou nas festas da cidade, Chibanga juntava-se a um amigo para negociar com o porteiro da praça a participação na festa brava. Em dias de espectáculo, Ricardo dedicava a manhã a alisar a arena e a capinar em redor, recebendo em troca o bilhete para as corridas. Fazia também, com toscos paus de madeira, bandarilhas que vendia aos turistas. E assim foi conseguindo ver mais e melhor, ao mesmo tempo que o desejo de confronto com o touro germinava.

Anos mais tarde, já famoso, numa entrevista à revista “Tempo” de Julho de 1973, confessou que trabalhou sob as ordens de um tal Pinheiro que tinha a seu cargo a preparação dos animais para a lide. Fascinado pela valentia do toureio, explorava toda e qualquer possibilidade de treinar o instinto para fintar com habilidade o novilho. No centro das suas atenções, estavam os toureiros portugueses, espanhóis e mexicanos que, por aquela altura, desfilaram em Moçambique. De todos, o favorito era Manuel dos Santos, o maior matador de touros aos olhos de Chibanga.

Certa tarde, porém, Manuel dos Santos, já então um renomado matador, passeou a sua classe pela Monumental acompanhado pelo não menos sonante Diamantino Vizeu. Na faena impressionaram tanto Chibanga que este não teve pejo em pedir ao empresário Alfredo Ovelha que o levasse para Lisboa a fim de formá-lo como toureiro. E foi assim que, em 1962, Chibanga, à boleia das Forças Armadas Portuguesas, desembarcou em Lisboa.

Depois de cumprido o serviço militar no exército português, e pela mão de Manuel do Santos, o jovem Ricardo fixou residência na vila ribatejana da Golegã, onde até hoje vive. Aí, supervisionado pelo grande Manuel dos Santos e por José Tinoca, Chibanga inicia-se afincadamente na aprendizagem das lides da tauromaquia, começando pelas garraiadas e vacadas e pelos espectáculos de variedades taurinas.

Finalmente, em 1965, com a praça do Campo Pequeno em Lisboa repleta, Chibanga estreia- se em traje de luces, envergando um fato emprestado por José Trincheira. Nessa mesma tarde, sai em ombros da praça, iniciando uma imparável carreira de consecutivos sucessos que o levaria a pisar arenas de todo o Portugal, Espanha, França, México, Inglaterra, Venezuela, Canadá, EUA, Indonésia, China, Moçambique e Angola.

O perigo da vida na arena levou-o muitas vezes para camas de hospital. “Uma vez, em Sevilha, um toiro deixou- me 16 dias em coma, foi difícil recuperar psicologicamente”, confessou. Acrescentando que “o nervosismo é o factor que mais preocupa os profissionais. Em corridas importantes, passava as semanas anteriores sem dormir. O povo exige muito de nós, muita arte, imaginação e coragem.”

Numa tarde no sul de França, ao brindar ao celebérrimo pintor espanhol Pablo Picasso o segundo touro dessa tarde, foi convidado para um copo depois da corrida em casa do pintor, acabando por sair de lá com quadro cujo valor desconhecia por completo.

Enquanto a saúde permitiu Chibanga, apesar de reformado do capote encarnado, continuou ligado à actividade taurina, percorrendo Portugal com duas praças desmontáveis que transformou no seu ganha pão.

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Actualizado em Quarta, 17 Abril 2019 07:29
 
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