Sequestro do "barão da droga" é vitória do crime organizado em Moçambique?!
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Escrito por Luís Nhachote  
Quinta, 20 Novembro 2014 14:20
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O sequestro do "empresário" Mohamed Bachir Suleimane (MBS), ocorrido no dia 12 de Novembro, foi a prova cabal do poderio – e da vitória – dos tentáculos do crime organizado, ao qual o Estado se tem prostrado por via de uma inoperância que não deixa ninguém seguro.

A suspeita da capitulação do Estado vira certeza quando um dos seus principais contribuintes, cujos impostos pagam os salários de quadros que se sentam em poltronas confortáveis, é raptado em plena luz do dia sem que os agentes da lei e ordem esbocem qualquer espécie de reacção.

Quando é raptado o "empresário" que um dia ofereceu 50 motorizadas à Polícia da República de Moçambique (PRM) é caso para dizer: vamos todos a Pasárgada. O último que sair tranca as portas.

Raptaram o ‘empresário’ que fez libertar o sorriso contido do Presidente Guebuza, quando este testemunhou o acto de Bachir arrebatar, em leilão, o cachimbo que fora sua “marca registada” e oferecê-lo de seguida à sua esposa!!!. Raptaram MBS, o ‘empresário’ que nunca teve mãos a medir, nos cordões da(s) sua(s) bolsa(s), quando fosse para apoiar o “meu partido” como dizia, amiúde. Nyusi viu-o em Setembro...

Dos relatos do sequestro...

De acordo com várias testemunhas que falaram ao @Verdade, o rapto terá ocorrido no recinto do Maputo Shopping Center e envolveu três indivíduos munidos de duas armas de fogo do tipo AKM e que conduziam uma viatura de marca Toyota Prado cuja chapa de matricula ninguém conseguiu registar. Após terem dominado a vítima, que nesse dia teria “dispensado a sua segurança” os raptores fugiram em direcção à avenida da Marginal. Várias fontes disseram que os raptores chegaram ao local no período da manhã, onde ficaram a aguardar por uma melhor oportunidade para sequestrarem a sua vítima. Aliás, como forma de tentar desviar as atenções e fazer tempo, aproveitaram a longa espera para mandar lavar a sua viatura.

Quem é MBS?

Nascido a 28 de Abril de 1958 em Nampula, Momad Bachir Sulemane orgulha-se de ser “empresário de sucesso fruto do meu trabalho desde os nove anos de idade”. Terá começado nessa tenra idade a sua actividade comercial numa banca, no Mercado Central de Nampula, evoluindo até emergir nos anos ´90 como um dos “reis das capulanas” e da venda de electrodomésticos e utensílios de instalação eléctrica.

Quando, na Avenida Karl Marx, em frente ao encerrado Cemitério São Francisco Xavier de Assis estabeleceu o seu quartel- -general, começou a expandir o seu negócio, adquirindo lojas em quase todos os bairros e zonas da cidade, instalando as da Kayum Electrónica, Armazéns Valy e, sobretudo, Zeinab Têxteis, ao mesmo tempo que “engolia” famílias-empresa até então poderosas como o Grupo Golam – que praticamente desapareceu.

A expansão do seu negócio foi sendo acompanhada por uma exposição mediática cada vez mais imponente, quando em jantares/ leilões de angariação de fundos para campanhas do seu partido pagou um bilião de meticais da antiga família do metical (actualmente um milhão) para comprar a caneta do candidato Guebuza, uma vez, e depois o cachimbo do escolhido pela Frelimo para suceder Joaquim Chissano – para cujas campanhas também havia sido benemérito. Das duas vezes, após arrematar a caneta e o cachimbo acabava por generosamente oferecê-los de volta ao seu dono, sempre através da esposa do candidato, Maria da Luz Guebuza.

Os interesses empresariais do MBS vs designação de “barão de droga”

A 1 de Junho de 2010, o cidadão Mohamed Bachir Suleimane foi declarado pela Administração de Barack Obama “barão da droga” e colocado na principal lista desses perigosos indivíduos para os Estados Unidos da América. No dia 2 de Junho de 2010, quando a notícia corria o mundo, Bachir, fazendo-se acompanhar pelo seu advogado Máximo Dias, concedeu uma conferência de Imprensa, alegando ser falaciosas as acusações que lhe imputavam.

A Procuradoria-Geral da República (PGR), dada a gravidade das acusações contra um cidadão nacional, através do Gabinete de Combate à Droga, criou uma equipa para a qual foram chamados dois agentes da Polícia de Investigação Criminal, para investigarem MBS. A PGR da chancelaria de Augusto Paulino, após tal ‘investigação” foi ao Parlamento dizer que aquele órgão não encontrou nada de concreto como resultado do seu processo de averiguações.

Empresas do grupo MBS matriculadas sem o nome de Bachir

O Departamento do Tesouro dos EUA sancionou três empresas do grupo MBS e proibiu os seus cidadãos e funcionários de fazerem compras naquele grupo. Em conformidade com a Lei dos Barões da Droga, o Gabinete de Controlo de Bens Estrangeiros do Departamento do Tesouro (OFAC) designou o Grupo MBS Limitada, Grupo MBS – Kayum Center, e o Maputo Shopping Center como Traficantes de Narcóticos Especialmente Designados, devido ao facto de serem propriedade de Mohamed Bachir Suleimane ou estarem sob o seu controlo.

Na verdade, segundo apurou a investigação do @Verdade, nenhuma de empresas também sancionadas pela Administração Obama tem no seu registo o nome de M. Bachir Suleimane. Desde a construção do majestoso shopping – que tem o “Guebuza Square”, como atracção – os empreendimentos da família de Bachir vêm sendo dirigidos pela esposa e filhos. Nada está feito em nome do grande patrão do MBS.

Tudo está encoberto pela família. Em 2006, de acordo com o Boletim da República nº 43, da III série, Momade Kayum Bachir, um dos filhos de Mohamed Bachir Suleimane, constituiu com Vladimir Domingos Rafael Manuel, Diederick Johanes Gilliland, Gracinda Abiatar Mutemba Tivane e Johann Andreas Rautenbach, a Moçambique Construções, Limitada.

O capital social desta empresa, à data da sua constituição, foi de cem mil meticais da nova família. Esta sociedade dissolveu-se pouco tempo depois da sua constituição. Ainda em 2006, Momade Kayum Baschir, Abida Banu Mussa – esposa de Baschir Suleimane e dos irmãos Vali Momade Baschir e Saif Momade Baschir, constituíram em sociedade, o Maputo Shopping Center, Limitada.

Em 2007, Momade Kayum Bachir constitui com os irmãos Vali Momade Suleimane e Saif Momade Suleimane, o “Hiper Maputo, Limitada”. Em 2010, os filhos de M. Bachir S. e esposa juntaram-se a Akilis Jorge Macropulos, Kimon Manuel Macropulos e a João Romeu Martins de Carvalho, para adquiriram parte das acções da PROTAL, quando esta alterou o seu pacto social. Em 2010, os irmãos Momade Kayum Bachir e Vali Momade Bachir constituíram a Maputo Game Center, que tem como objecto social “a realização de actividades relacionadas com a exploração e gestão de jogos de entretenimento...”.

O único registo de sociedade em que Mohamed Baschir Suleimane se encontra matriculado tem a ver com a Edge Tecnologias, Limitada. Esta, segundo o Boletim da República nº. 13, de 29 de Março de 2006, é uma sociedade que MBS tem com a “Africom, Limitada”, “Delta Trading e Companhia Limitada”, “Niza, Limitada” e a “Kangela Comercial”.

O objecto social da Edge é “a) A produção, distribuição e comercialização de todo o tipo de produtos, tecnologias e serviços dos sectores de telecomunicações dos mercados fixo e móvel, audiovisual e tecnologias de informação, e comunicações em geral, no quadro da legislação nacional e internacional aplicável; b) A importação e a exportação ou reexportação de equipamentos, aparelhos, materiais, produtos e tecnologias, no âmbito dos fins que prossegue, e bem assim; c) Quaisquer outros negócios que os sócios resolvam explorar e sejam permitidos por lei”.

Sequestro de MBS e a prisão de “barões da droga” do Quénia

A Imprensa indiana e Queniana está a relacionar o desaparecimento de Bachir Suleman com a prisão de barões da droga do Quénia. O desaparecimento do empresário moçambicano Mohamed Bachir Suleman poderá estar relacionado com as prisões efectuadas recentemente no Quénia, numa operação em que foram detidas quatro pessoas por alegado envolvimento no tráfico de heroína.

As informações são da Imprensa queniana e indiana. A primeira ligação deve-se ao facto de na operação no Quénia, em que foi apreendida heroína, estar envolvida a agência de combate à droga dos Estados Unidos, a Drug Enforcement Agency, conhecida por DEA. Como se sabe, os Estados Unidos, em 2010, colocaram o empresário moçambicano na lista de barões da droga afirmando que ele liderava uma bem financiada rede de tráfico de drogas e de lavagem de dinheiro em Moçambique.

Este facto e a operação em Mombassa, no Quénia, podem por si sós não indicar uma ligação com o rapto de Suleman, mas as suspeitas de uma relação entre os dois casos avolumam- se, não só devido ao facto de o desaparecimento de Suleman ter acontecido poucos dias depois da operação em Mombassa, como também por haver notícias de ligações indirectas do empresário moçambicano à operação que se desenrolou no Quénia.

Segundo a Imprensa queniana, que cita autoridades nacionais, os presos são Vicky Goswami, Baktash Abdallah (que aparece também com o nome de Akash Abdallah), o seu irmão Ibrahim Abdllah e Kulam Hussein. Vicky Goswami era um antigo sócio de Dawood Ibrahim de quem se afastou depois de este último ter sido acusado de ser o mentor de uma série de atentados bombistas em Bombaim, na Índia, que causaram a morte de 350 pessoas.

Por sua vez, a Imprensa indiana lembra que Goswami tinha sido preso em 1997, e condenado no Dubai a 25 anos de prisão por tráfico de drogas. Entretanto, ele foi libertado ao fim de alguns anos por bom comportamento, tendo então partido para o Quénia.

As mesmas fontes dizem que Vicky Goswami associou-se a Baktash (Akash) Ibrahim no negócio de drogas que se expandiu rapidamente para a África do Sul. Segundo o jornal indiano Mumbai Mirror, o empresário moçambicano Mohamed Bashir Suleman deu então ordens para se eliminar Goswami e, para isso, contava com o apoio de Dawood Ibrahim.

O Mumbai Mirror vai mais longe e afirma que, como não conseguiu localizar Goswami, Dawood teria passado informações sobre o tráfico de drogas à Polícia queniana, na esperança de que quando as autoridades quenianas prendessem os irmãos Abdallah pudessem então localizar Goswami. Foi isso que aconteceu há cerca de duas semanas, quando a Polícia prendeu não só os irmãos Abdallah, como também Goswami e um quarto acusado.

Poucos dias depois, mais precisamente a 12 de Novembro, Mohamed Bachir Suleman desaparecia em Maputo sem deixar rastos. Até hoje a família não informou se foi ou não contactada pelos sequestradores. No Quénia, as autoridades disseram que os Estados Unidos querem a extradição das quatro pessoas presas na operação levada a cabo em Mombassa, em que teriam participado agentes da DEA. Até agora, o nome de Mohamed Bachir Suleman não foi mencionado pelas autoridades quenianas.

Comentários   

 
0 #1 Rui 01-12-2014 11:19
A relação entre MBS, Goswami e Dawood não está clara nesta reportagem. Por que MBS queria Goswami morto? E, por que contactou Dawood?
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Actualizado em Terça, 25 Novembro 2014 17:36
 
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