Um barril de pólvora chamado areias pesadas de Sangage
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Escrito por Redação  
Quinta, 16 Julho 2015 09:08
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Em Sangage, distrito de Angoche, o clima de tensão instalado entre as comunidades locais e a empresa que leva a cabo a extracção de areias pesadas implantada naquele ponto da província de Nampula ameaça degenerar num conflito sem precedentes. A população queixa-se de não ter benefícios, tais como serviços básicos e emprego, resultantes da exploração dos seus recursos, limitando-se a ver passar os camiões em direcção ao porto. A essa situação acresce-se a insatisfação de mais de mil trabalhadores da mina que clamam por melhores condições de trabalho.

Numa região onde o índice de desemprego é bastante acentuado, quando o projecto de extracção de areias pesadas, detido por um grupo chinês denominado Hayiu Mining Company, foi implantado, deixou animada a população de Sangage, pois acreditava-se que o mesmo iria impulsionar o desenvolvimento económico e social da localidade, em particular, e do distrito de Angoche em geral. Até porque aos residentes daquela parcela do país foram prometidas melhores condições de vida que seriam traduzidas em boas estradas, acesso à água potável, hospital, educação e emprego.

Porém, ao invés do desenvolvimento local prometido, no âmbito da sua componente de responsabilidade social, por aquela multinacional que opera desde finais de 2011, as comunidades de Sangage limitam-se a ver passar dezenas de camiões carregados de areias pesadas. A título de exemplo, as vias de acesso usadas pelos referidos veículos daquela empresa de capitais chineses para o transporte dos minérios ali explorados até ao porto de Angoche, numa distância de aproximadamente 20 quilómetros, ainda se encontram em estado de degradação preocupante, produzindo muita poeira que é inalada pela população residente nas imediações.

Em Sangage, o acesso à água e a uma unidade sanitária ainda é uma miragem. Há poucas fontes do precioso líquido que são disputadas por centenas de pessoas. Em casos de doenças graves, os cidadãos são forçados a caminhar 20 quilómetros para obter assistência médica.

A população lamenta o facto de quase todas as promessas apresentadas na véspera do arranque do projecto, pelo Governo e pela mineradora chinesa, não terem sido cumpridas até esta data, volvidos aproximadamente quatro anos. No entender das comunidades, a exploração mineira naquele ponto do país está beneficiar apenas os governantes.

Algumas pessoas entrevistadas pelos @Verdade em Sangage mostraram o seu desconforto em relação ao projecto, tendo afirmado que, desde que o mesmo arrancou, não obstante todos os compromissos assumidos em ajudar a comunidade, só foram abertos dois furos de água para uma população estimada em mais de 10 mil habitantes, para além de ter sido feita a vedação do Centro de Saúde local que clama por uma reabilitação integral e pela introdução de vários serviços considerados vitais.

Lopes Vasco, conhecido por régulo Murrua, em Sangage, concretamente o local onde decorrem todas as operações da mina, desde a extracção ao processamento, disse que, para além do estrago acentuado das vias de acesso provocado pelos camiões da mineradora, aliada à degradação ambiental, a população local já começa a queixar-se de casos relacionados com doenças respiratórias, derivados da poeira ali produzida.

“Houve promessa de desembolso de cerca de três milhões de dólares norte-americanos para os projectos sociais na região, mas pelo que foi feito não acredito que tenha sido usado todo esse valor. As viaturas que faziam o troço cidade de Angoche/Sangage já estão a abandonar a actividade, devido à degradação das vias de acesso”, disse régulo Murrua, tendo acrescentado que “já notificámos as autoridades administrativas sobre este perigo e a necessidade de intervenção da mineradora, mas sem sucesso”.

Mamade Assane, residente na localidade de Sangage, é casado e pai de quatro filhos. Ele explica que, quando foi anunciada a implantação do projecto de exploração das areias pesadas naquela parcela do país, muitos moradores viram uma grande oportunidade de a região sair da deplorável condição de vida em que a população local se encontrava mergulhada. Mas tal não passou de um mero sonho, pois os problemas prevalecem e com tendência de agravamento a cada dia que passa.

“Não há apoio para a produção agrícola, falta água potável, e há casos de doenças respiratórias em consequência da poeira produzida pelos camiões. Construíram apenas a escola primária cujo estado deixa muito a desejar”, disse Assane.

Para Ali Abibo, também residente naquela localidade, casado e pai de seis filhos, com a entrada da mineradora naquele povoado, apesar de ter havido melhoria nalgumas infra-estruturas, ainda há muita coisa por se fazer. “Já há energia eléctrica para a mina e a localidade, mas isso só beneficia a empresa e um punhado de moradores. Nós queremos apoios para a implementação de projectos de geração de rendimentos, que nos possam ajudar a comprar comida, roupa e outros bens para a nossa famílias”, disse.

Recorde-se ainda este ano a população de Sangage insurgiu-se contra a empresa, colocando barricadas nas estradas como forma de pressionar a direcção daquela multinacional a cumprir as promessas feitas, acção que não produziu nenhum efeito.

Onde foi aplicado o dinheiro desembolsado pela Hayiu Mining?

De acordo com Fila Lázaro, porta-voz da Direcção Provincial dos Recursos Minerais e Energia, num memorando de entendimento assinado entre o Governo moçambicano e a mineradora de Sangage, esta ter-se-ia comprometido a desembolsar um valor estimado em três milhões de dólares norte-americanos com vista a serem aplicados em acções de responsabilidade social corporativa.

De acordo com o Fila, este valor foi colocado à disposição do Governo que investiu na construção de uma escola primária em Liquene num dos bairros de Sangage, na reabilitação de 10 salas de aula da Escola Secundária da cidade de Angoche, na aquisição de duas viaturas, sendo uma ambulância e outra para o sector de Educação, na reabilitação da maternidade e do bloco operatório no Hospital Rural de Angoche, e na construção da casa morgue com sistema de frio e com a capacidade de seis corpos. Além disso, foi feita a aquisição de um tractor com as respectivas alfaias agrícolas, a alocação de crédito a algumas associações na cidade de Angoche e a reabilitação de unidades hoteleiras, com destaque para o Hotel Parapato.

“O dinheiro foi desembolsado em duas tranches, e não era apenas para financiar projectos de Sangage, mas de todo o distrito de Angoche. Quando a população passa a vida a reclamar e a exigir cada vez mais benefícios, ela está a afugentar os investimentos e nós temos vindo a acautelar este tipo de situações”, disse Fila.

Trabalhadores da mina insatisfeitos

Com a implementação do projecto das areias pesadas de Sangage, a população daquele ponto do país esperava ver criados postos de trabalho, uma vez que o distrito assistiu ao desaparecimento das grandes indústrias que antigamente empregavam milhares de trabalhadores e galvanizavam a economia local. Mas, segundo os populares, os chineses transformaram a empresa num centro de trabalho forçado.

Suspensões e despedimentos arbitrários e sem justa causa, baixos salários, falta de material de trabalho com destaque para botas, capacetes e luvas, de assistência médica e medicamentosa adequada, ameaças, e trabalho acima do horário estipulado caracterizam o dia-a-dia na Hayiu Mining Company. Como consequência disso, a empresa tem registado sucessivas paralisações das operações da mina, em reivindicação da melhoria das condições de trabalho pela massa laboral.

Todos os trabalhadores da mina auferem 5.744 meticais, contra o mínimo estipulado no país para os mineiros de extracção fixado em 6.100. A direcção da empresa instalou no interior da firma uma unidade sanitária devidamente equipada e com três médicos de várias especialidades apenas para cuidar da saúde dos trabalhadores chineses, e os nacionais são assistidos num posto de socorro sem condições mínimas para o efeito.

Ainda no interior da empresa foi, igualmente, instalado um posto policial, que tem por objectivo reprimir qualquer tentativa de greve levado a cabo pelos trabalhadores.

Gildo Niconte, director provincial do Centro de Mediação e Conflitos Laborais, disse que a sua instituição está a par das preocupações dos trabalhadores e, num passado não distante, as partes envolvidas foram colocadas na mesma mesa de negociação, esperando-se que a situação venha a mudar dentro dos próximos dias. “Já se criou na empresa um Comité Sindical que vai elevar o nível de articulação e comunicação interna”, afirmou.

Quando contactado pelo @Verdade, o director-geral da empresa, Yund Tong Guo, escusou-se a comentar sobre quaisquer assuntos relacionados com a firma.

Refira-se que aquela empresa de capitais chineses investiu cerca de 30 milhões de dólares norte-americanos para a implantação do projecto e, para o ano de 2015, espera processar e exportar 215,4 milhões de toneladas de ilmenite, zircão e rutilo, produtos usados no fabrico de tintas plásticas, nas indústrias de cerâmica, aviação, fabricação de peças ortopédicas, entre outros fins.

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