Onélia Mutombene: uma basquetebolista que se divorciou do futebol
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Escrito por Duarte Sitoe  
Segunda, 20 Julho 2015 08:16
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Na última edição da Liga Nacional de Basquetebol sénior feminino, Onélia Mutombene participou em três jogos apenas, mas logrou destacar-se das basquetebolistas que actuaram em mais de setes partidas a ponto de ser eleita a melhor jogadora da competição, MVP. O @Verdade apresenta ao leitor uma parte da história de vida da base – armadora do Ferroviário de Maputo que se arredou do futebol para abraçar a modalidade da bola ao cesto.

Tal como a melhor atleta, Maria de Lurdes Mutola, que o desporto moçambicano viu nascer depois da independência, Onélia Mutombene teve como a sua primeira paixão, no que toca a modalidades desportivas, o futebol.

Filha de Paulo Manuel Mutombene e Roda Chaúque, a base-armadora do Clube Ferroviário de Maputo nasceu a 24 de Outubro de 1990, na capital moçambicana, e actualmente reside com a família no Bairro da Malhangalene, arredores da cidade de Maputo.

A nossa entrevistada, emocionada, confessou que foi a que deu mais problemas ao casal Mutombene na infância, uma vez que era muito irrequieta, e sempre que estivesse em casa tinha que ter alguém para a vigiar.

“Na mocidade gostava muito de mexer nas coisas e sempre tinha de ter um adulto por perto para me controlar. Por vezes os meus irmãos tinham ciúmes porque os meus progenitores davam mais atenção a mim do que a eles. Devido ao meu comportamento, fui matriculada numa escolinha onde as aulas iniciavam às 8 horas e só regressava à casa depois das cinco da tarde. Apesar dos problemas que dei aos meus progenitores, tive uma excelente infância”.

Uma carreira que se inicia no futebol

A melhor jogadora da edição da presente época da Liga Nacional de Basquetebol sénior feminino tem um amor incondicional pelo futebol. Por um longo período acreditou que se sentiria realizada nesta modalidade; todavia, não sabia o que o destino lhe guardava.

No futebol, Onélia representou a Escola Primária da Munhuana nos Jogos Desportivos Escolares. Depois de passear a sua classe naquela competição entre escolas, Mutombene rumou ao Ferroviário de Maputo com o intuito de prosseguir a sua carreira, visto que neste clube iria competir em provas organizadas pela Associação de Futebol da capital do país.

A MVP lembra com nostalgia os tempos em que trocava os afazeres de casa por uma peladinha com os amigos.

“No passado o futebol fazia parte de mim, assim como o basquetebol no presente. Primeiro participei nos Jogos Desportivos Escolares em representação da Escola Primária da Munhuana, mas depois fui para o Ferroviário de Maputo para dar seguimento à minha carreira”, disse a jogadora para depois acrescentar o seguinte. “Jogar futebol era a minha paixão, antes de me apaixonar pelo basquetebol. Nesta modalidade tinha um talento nato, uma vez que conseguia imitar todas as fintas do Thierry Henry, antigo jogador do Arsenal e da selecção francesa. No presente acompanho mais o futebol do que o basquetebol”.

“Uma traição que terminou em casamento”

No bairro da Malhangalene, onde Onélia reside actualmente, era a única das meninas que jogava futebol, mas como já referimos aquele não era o que o destino lhe havia reservado. Por influência de amigas como Elsa Esculudes, que a convidou para assistir aos treinos de basquetebol no clube locomotiva, descobriu que, para além do futebol, tinha talento para a modalidade da bola ao cesto.

“Na escola não queria saber nada de basquetebol. Tive o primeiro contacto com uma bola diferente daquela a que estava habituada no futebol no Clube Ferroviário de Maputo convidada por uma amiga de nome Elsa. Treinei e o técnico disse-me que tinha talento para aquela modalidade. Decidi trocar o futebol pelo basquetebol”.

Na sua primeira aventura na modalidade da bola ao cesto Onélia, apesar do engenho, não foi bem-sucedida, uma vez que era alvo de vários preconceitos por essa razão não conseguiu singrar e decidiu sair do Ferroviário de Maputo. “Regressei ao futebol, mas não parei de praticar basquetebol. Na mesma época participei numa prova denominada AND – 1 e foi eleita uma das melhores, mesmo competindo com rapazes”.

Continuou a praticar futebol e basquetebol em simultâneo, mas fora do Clube Ferroviário de Maputo. Por insistência de Jaime, treinador das camadas jovens do clube locomotiva, regressou ao basquetebol.

No seu retorno, em 2004, Onélia passou por todos os escalões de formação do Ferroviário de Maputo. Nesta sua nova aventura, Mutombene voltou com mais pujança e já era assídua nas convocatórias para os jogos daquela equipa.

Em 2007, no seu último ano de juvenis, foi convocada para treinar com a equipa sénior. Naquela temporada, faziam parte do plantel locomotiva jogadoras como Carla Silva, Janete Monteio e Zenóbia Machanguana, atletas que dispensavam qualquer tipo de apresentação. A base – armadora declarou que foi bem acolhida pelas vedetas.

“Cheguei a tirar lágrimas ao treinar pela primeira vez com a Carla Silva porque admirava-a e queria ser como ela. Fui bem recebida pelas jogadoras mais velhas, elas deram-me conselhos para singrar nesta modalidade”.

“Vou trabalhar para defender o galardão de MVP”

Com idade de júnior, Onélia já fazia parte da equipa principal do Ferroviário de Maputo. Depois de vários anos sem títulos no clube locomotiva, a base - armadora foi imprescindível para o êxito da formação liderada por Leonel Manhique nas últimas duas edições da Liga Nacional de Basquetebol sénior feminino. No certame disputado no passado mês de Junho, Mutombene participou em três jogos apenas e, mesmo assim, foi eleita a melhor jogadora da competição. A atleta declarou que vai continuar a trabalhar para defender este galardão.

“Tenho de continuar a trabalhar para defender este título, até porque algumas pessoas não concordaram com a minha nomeação; por isso, devo-me esforçar para assegurar o respeito das minhas adversárias”.

Foi presença assídua das convocatórias das selecções nas camadas de formação. Desde 2012 faz parte das pré – convocatórias das Samurais, mas nunca conseguiu espaço na lista final. A atleta ambiciona afirmar-se com a camisola do combinado nacional. “ Agora estou mais madura: Sou bicampeã nacional e MVP. Vou dar o meu melhor e o treinador é que irá decidir se farei ou não parte da selecção definitiva”.

Fora das quadras

Fora das quadras a melhor jogadora da última edição da Liga Nacional de Basquetebol sénior feminino frequenta o terceiro ano do Curso de Direito. Assim como todos os atletas que evoluem no basquetebol moçambicano, Onélia Mutombene ambiciona jogar num campeonato mais competitivo em relação ao nosso. A nossa interlocutora contou que a sua família apoia-a incondicionalmente, sobretudo nos momentos em que não está na sua melhor forma.

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