Bolsa de Valores de Moçambique, uma Bolsa com pouco valor que está distraída com as PME´s
Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Adérito Caldeira  
Terça, 11 Julho 2017 07:47
Share/Save/Bookmark

Ao longo de quase duas décadas de existência a Bolsa de Valores de Moçambique(BVM) conseguiu cotar apenas cinco empresas que geram quase nenhum negócio para a economia, o seu índice de liquidez é de 0,3, gerado em mais de 80% pelas venda de Títulos Públicos e Obrigações do Tesouro. Ao contrário dos esforços que têm sido despendidos para atrair as Pequenas e Médias Empresas(PME´s) a BVM deve trabalhar para cotar as Empresas Públicas, as Empresas Financeiras e as restantes Grandes Empresas que operam no nosso país.

Um dos objectivos estratégicos do segundo Pilar do Plano Quinquenal do Governo de Filipe Nyusi, relativo à promoção de um ambiente macro-económico equilibrado e sustentável, é “promover o crescimento sólido e estável do mercado de seguros e da Bolsa de Valores”. Para alcançar esse objectivo o Executivo propôs-se a captar Empresas para o Mercado das Cotações Oficiais, promover a adesão de Pequenas e Médias Empresas no segundo mercado e ainda dinamizar o mercado secundário.

Contudo um investidor da Bolsa, com mais de 40 anos de experiência não só em Moçambique, afirmou durante a apresentação de um estudo sobre o reposicionamento estratégico da BVM que “(...)nós gostamos de fazer um bocado às coisas à nossa maneira mas não há Bolsa nenhuma no mundo que tenha começado de baixo para cima, ou seja das Pequenas e Médias Empresas para às Grandes Empresas. Primeiro cria-se um mercado com a Grandes Empresas, com as Empresas Públicas lucrativas, com Empresas Públicas que induzem a ideia do capitalismo”.

“A MATAMA já deveria ter sido excluída de cotação porque não tem transacções”

Baseado na sua longa experiência Dias Pereira explicou que se “de um lado temos que começar por ter empresas do Estado com uma parte do seu capital admitido à cotação e com estímulo para que as pessoas as comprem. Do lado da oferta temos que fazer tudo, não há Bolsas moçambicanas, há Bolsas mundiais e uma delas baseada em Moçambique. É preciso varrer esta ideia de uma vez por todas, passa pela lei cambial, passa pelos bancos, passa pela Autoridade Tributária, passa por uma série de factores”.

“Depois temos que ter intermediários, informação e depois temos que criar apetência, a procura tem que se estimular tal com a oferta tem que ser estimulada à montante” acrescentou Pereira apontando a recente cotação na Bolsa de Valores de Moçambique da MATAMA - Matadouro da Manhiça, SA, - como uma operação falhada.

“Eu ando há dois meses a ver quando será feita a primeira transacção, em qualquer Bolsa a MATAMA já deveria ter sido excluída de cotação porque não tem transacções. Porque ninguém procurou. E porque ninguém procurou? Porque a MATAMA não acedeu à Bolsa através de uma IPO (acrónimo em inglês de Initial Public Offering, ou Oferta Pública Inicial, que é a denominação do momento em que a empresa abre o seu capital e passa a ser cotada numa Bolsa de Valores), onde a Matama punha um determinado número de acções à disposição dos compradores, fazia uma campanha de marketing, explicava qual é o seu negócio, qual é o seu projecto, qual é o seu turn over, qual é a rentabilidade que esperam, e as pessoas ficam com apetência” aclarou o experiente investidor bolsista.

BVM deve começar pelas Empresas Públicas, Grandes Empresas e só depois as PME´s

Bolsa de Valores de MoçambiqueOutros investidores entrevistados pelo @Verdade concordaram que o objectivo da BVM deve ser captação das grandes empresas como por exemplo os Bancos Comerciais, as Seguradoras e outras empresas do sector financeiro como os fundos de pensão. Aliás a cotação na BVM das Empresas Púbicas iria à partida obriga-las a melhorar a gestão e a terem mais transparência como por exemplo a publicação anual dos seus Relatórios e Contas devidamente auditados, algo que não acontece. Por outro lado as Empresas Participadas pelo Estado deveriam cotar-se, ainda que parcialmente, com o potencial de gerarem consideráveis receitas para o erário.

Além disso, estando cotadas na Bolsa de Valores de Moçambique, ainda que parcialmente, as Empresas Públicas estariam sob o escrutínio dos investidores bolsistas que são muito melhores gestores que qualquer ministro que as tutela actualmente. Também as subsidiárias locais da multinacionais que exploram os nossos recursos naturais poderiam estar cotadas BVM, mas não estão.

O @Verdade no entanto apurou que pelo menos o novo Regulamento das Operações Petrolíferas determina a obrigatoriedade das empresas concessionárias estarem inscritas na Bolsa de Valores de Moçambique a partir da data de aprovação do respectivo plano de desenvolvimento.

Os nossos entrevistados foram unânimes em afirmar que nenhuma Bolsa no mundo tem um segundo mercado a funcionar antes do primeiro operar na plenitude, existem inclusivamente países onde o Mercado Primário é punjante há quase meio século mas até hoje não conseguiram implantar o Mercado para PME´s.

PCA da Bolsa de Valores de Moçambique recusa esclarecer @Verdade

Bolsa de Valores de MoçambiqueEntretanto o estudo preliminar sobre o reposicionamento estratégico, elaborado pelo Programa de Desenvolvimento Económico e Empresarial (USAID/SPEED+), constatou ainda que ao longo destas quase duas décadas a BVM gerou muito poucas receitas para a economia. A título ilustrativo foi apurado que o índice de capitalização bolsista de Moçambique relativamente ao seu Produto Interno Bruto é de 4, contra 14 da Bolsa da Zâmbia, 31 em relação ao Uganda, 41 a do Zimbabwe ou 234 da Bolsa sul-africana.

Um outro índice apresentado pelo estudo, a título comparativo, é o da liquidez. Enquanto num ano a BVM negociou o que tem cotado 0,3 vezes, a Bolsa do Zimbabwe negociou 8,1 vezes, da Zâmbia 20 vezes, a da Tanzânia 30 vezes e a Bolsa da África do Sul negociou 38 vezes no mesmo ano os seus activos.

Este estudo, ainda em fase preliminar, constatou ainda que os principais vendedores da Bolsa de Valores de Moçambique são os bancos comerciais, que nem sequer estão cotados, todavia estas instituições dão óbvia primazia à venda dos seus próprios produtos aos potenciais investidores bolsistas ou mesmo às empresas que queiram cotar-se para se financiar, numa evidente concorrência.

O @Verdade constatou que os bancos comerciais nem sequer têm serviços de corretagem.

Um outro grande constrangimento é que ainda é muito difícil trazer dinheiro para Moçambique, pois nenhum mercado cresce só com os recursos locais, tem de estar aberto a investidores estrangeiros.

Investidores explicaram ao @Verdade que devido as restrições impostas pelo Banco de Moçambique a entrada de capital do demora pelo menos 2 meses e, caso o investidor venda as suas acções e pretenda repatriar o seu dinheiro o banco central demora muitos outros meses a autorizar essa operação.

Aos consultores do estudo da USAID/SPEED+ os empresários disseram que não conhecem a BVM, pretendem que ela seja mais aberta, sugeriram até que Bolsa mude-se das actuais instalações para um edifício mais visível, notaram a falta de informação sobre as cotações nos medias e entre os poucos investidores alguns nem sequer sabem qual é a capitalização dos investimentos que fez.

O @Verdade tentou ouvir Salim Valá, o Presidente do Conselho de Administração da BVM, mas o nosso pedido de esclarecimntos foi recusado.

Comentar


Código de segurança
Atualizar

 
Avaliação: / 3
FracoBom