Filipe Nyusi quer vencer “5-0” as Eleições Gerais em Moçambique para “emergir como líder”
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Escrito por Adérito Caldeira  
Quinta, 10 Outubro 2019 20:43
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Foto do partido FrelimoFilipe Jacinto Nyusi é o mais mal preparado Chefe de Estado que Moçambique já teve, antigo gestor ferroviário, sem militância política ascendeu a ministro da Defesa, no Governo de Armando Guebuza, e contra todos os prognósticos foi indigitado para ser o candidato do partido Frelimo. Aos 60 anos de idade o filho de camponeses que se tornou no 4ª Presidente da República tem pedido uma vitória “5-0” nas Eleições Gerais de 15 de Outubro, na óptica do professor Adriano Nuvunga “ele tenta emergir como líder”.

Desconhecido do povo moçambicano Nyusi saltou para os holofotes quando em 2013 visitou o acampamento de Afonso Dhlakama na Gorongosa, na Província de Sofala, após o exército governamental ataca-lo. “A perseguição (aos homens armados da Renamo) era necessária para desactivar este núcleo do terrorismo e vai continuar para manter a estabilidade no país”, disse o então ministro da Defesa a jornalistas no local.

Membro irrelevante do partido Frelimo, Nyusi era o menos cotado dos cinco concorrentes que em Março de 2014 disputaram a nomeação de candidato nas primárias da mais antiga formação política de Moçambique, foi eleito numa segunda volta.

Mas as Eleições Gerais de 2014 aconteceram num momento tréguas militares, um mês antes Armando Guebuza e Afonso Dhlakama assinaram um despachado Acordo de Paz que permitiu o pleito que tornou Filipe Nyusi no 4º Presidente de Moçambique. Dhlakama não aceitou os resultados e regressou às matas da Gorongosa.

Pouco mais de 1 ano após Nyusi assumir a Presidência o Fundo Monetário Internacional descobriu que o Governo Guebuza havia endividado o país secretamente e ilegalmente, entre 2013 e 2014, junto de um banco suíço e outro russo tendo suspendido o Programa Financeiro que tinha em curso o que precipitou a crise económica e financeira que se vive desde 2016.

O professor de Ciência Política e Administração Pública, Adriano Nuvunga, explicou em entrevista ao @Verdade que “Nyusi ascendeu, nas condições em que ascendeu, tinha condições para fazer dois mandatos mas parte importante dos problemas que nós temos hoje derivam da má governação de Nyusi”.

“Há os problemas que herdamos de Guebuza, mas uma coisa são os problemas a outra é a maneira como você gere esses problemas. A maneira como esses problemas foram geridos tem mesmo peso que os problemas. A forma como o assunto das dívidas foi gerido pela actual liderança política tem a mesma proporção que o peso da própria dívida ilegal e o custo que os moçambicanos estão a ter. Uma gestão mais inteligente deste assunto teria permitido os Parceiro de desenvolvimento continuarem com o financiamento, reduzido obviamente, mas teria sido possível encontrar outras modalidades de financiamento ao desenvolvimento em Moçambique, não tivesse havido uma gestão enganosa e fraudulenta do Presidente Nyusi”, avaliou o académico.

“Desde que Nyusi chegou ao poder em Moçambique o desenvolvimento institucional está em decréscimo”

Em 2017 Presidente Nyusi regressou às matas da Gorongosa para tentar pôr fim a guerra que havia iniciado como ministro da Defesa. Novas negociações para a paz começaram com Afonso Dhlakama, mas o histórico líder da guerrilha que forçou a democracia em Moçambique acabou por falecer, vítima de doença em 2018. Há dois meses de novas Eleições Gerais o Governo da Frelimo firmou um novo Acordo de Paz com o partido Renamo.

Foto do partido FrelimoParalelamente as grandes reservas de gás natural que o país possui tornaram-se comercialmente viáveis num mundo em transição energética e agora Filipe Nyusi pede um novo mandato porque “Moçambique tem tudo para dar certo”.

Nuvunga, que é professor na Universidade Eduardo Mondlane, não tem dúvidas que o país piorou durante o primeiro mandato de Filipe Nyusi. “O nível de desenvolvimento institucional em Moçambique está decrescer, desde a reforma do sector público iniciada por Joaquim Chissano. Guebuza promoveu um Estado com disciplina e com autoridade, recuperou a aura do Estado num sentido samoriano. Desde que Nyusi chegou ao poder em Moçambique o desenvolvimento institucional está em decréscimo e temo que num segundo mandato vai atingir o fundo, o Estado moçambicano vai ficar incaracterístico em termos institucionais”.

“Com o Presidente Guebuza havia uma framework de para onde estava a levar-nos, movido pela corrupção mas tinha um framework, isso não existe e não sei se o Presidente compreende o que é isso que nós estamos a dizer, por isso fiquei surpreendido pela decisão de recandidatar-se”, declarou o académico que dirige o Centro para a Democracia e Desenvolvimento (CDD).

Adriano Nuvunga assinalou que “nota-se que muitos membros do partido Frelimo estão agredidos com muitas coisas que estão a acontecer à volta do Presidente, mas muitos não podem falar porque tem rabo preso, são pouquíssimos como o antigo ministro da Finanças, Magid Ossmane, que falou daquela forma categórica. Ele está menos sujo que os outros no passado recente. Toda essa chamada elite da Frelimo não está limpa e por isso não pode falar, e a Frelimo hoje vive desse tipo chantagens, aquele que ousar falar de dentro vai ser exposto, vai ser escangalhado em público e as pessoas preferem ficar a caladas a ver sabendo que não está bem, mas dizem que não ficará pior”.

“Eu lamento dizer, do que vi no primeiro mandato, as pessoas que giraram à volta do Presidente Nyusi é o Celso Correia, o ministro da Terra, só a forma como o Ministério foi construído é corrupta. Este Ministério é o exemplo da grande corrupção no nosso país. O Ministério da Terra (e Desenvolvimento Rural) é um caso de corrupção”, avaliou o professor universitário entrevistado pelo @Verdade.

“Nyusi tenta emergir como líder, sabe que tem muitos que estão a olhar” dentro do partido Frelimo

Na óptica do director do CDD “o Presidente Nyusi reuniu-se do Celso Correio, com o Carlos Mesquita e o Machatine e esta é uma fórmula que não é boa para o nosso país. Os dois primeiros são pessoas que estavam no sector privado e foram para a política, esta é uma equação não boa”.

Foto de Adérito CaldeiraEmbora o Ministério da Terra e Desenvolvimento Rural, o Ministério dos Transportes e Comunicações e o Ministério Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos aparentem ser os que mais trabalharam durante o quinquénio a findar o professor Nuvunga argumentou que “se calhar os outros ministérios não foram deixados trabalhar, porque estes apropriaram-se do Presidente, se calhar porque foram indicados por ele e os outros pelo partido (Frelimo). Estes são os ministérios em torno dos quais os recursos, transparentes e não transparentes, giraram”, e deixou o apelo “era preciso que Machatine Munguambe não saísse do Tribunal Administrativo antes de realizar auditorias claras ao Ministério da Terra e ao Ministério dos Transportes e Comunicações”.

“Em todos os índices globais Moçambique está numa posição de cauda, está a descer justamente devido a este nível de subdesenvolvimento institucional em que está a caminhar o Estado, e isso vai ser acompanhado de uma razia aos cofres públicos através de novos endividamentos. A pressa que o Estado moçambicano tem em colocar a ENH a ir buscar 2 biliões de dólares as pessoas não percebem, esta reestruturação (da EMATUM) é para permitir que a ENH possa endividar-se e esse dinheiro é para ser distribuído aqui pelas elites consumistas que desde 1975 tem estado a afundar este país”, avisou Adriano Nuvunga.

Garantindo emprego para os jovens, manutenção da paz, combate a corrupção, descentralização e uma panóplia de promessas à medida dos problemas que não resolveu durante o 1ª mandato Filipe Nyusi tem pedido uma vitória “5-0” na próxima terça-feira (15) para “convencer, não podemos andar a ganhar à tangente”.

O professor Adriano Nuvunga esclareceu ao @Verdade que “Nyusi tenta emergir como líder, sabe que tem muitos que estão a olhar, é mais para dentro, quer mostrar. Sabe que para fora não vai atrair muitos mais votos, vai ficar com os que tem e depois os esquemas habituais de adulteração de editais que são feitos pelo partido”.

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Actualizado em Sexta, 11 Outubro 2019 07:25
 
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