Presidente Nyusi clama que agricultura salvou Moçambique “da crise que intensamente vivia”, banqueiros discordam
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Escrito por Adérito Caldeira  
Quinta, 31 Outubro 2019 22:11
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O Presidente Filipe Nyusi afirmou na segunda-feira (28) que graças a agricultura o custo de vida reduziu, a inflação baixou e ainda Moçambique foi salvo “da crise que intensamente vivia”. No entanto os banqueiros parecem discordar pois mantiveram as altas taxas de juro e o Metical continua a perder valor mostrando o seu cepticismo em relação a retoma da economia real, uma expectativa partilhada pelo Banco de Moçambique que nesta quinta-feira (31) suspendeu a descida das suas taxas de referência.

Discursando no Distrito de Nhamatanda, na Província de Sofala, durante o lançamento da Campanha Agrária 2019/2020 o Chefe de Estado recordou que “aquando do lançamento da campanha agrária 2017/2018, em Moamba, na província de Maputo, dissemos que o sector da agricultura podia contribuir para redução do custo de vida, disponibilizando comida no mercado, baixando assim a inflação e estabilizando a economia nacional”.

“É exactamente o que aconteceu, a nossa economia cresceu e a inflação baixou significativamente, em grande medida por causa do desempenho positivo do sector agrário”, anunciou o Presidente da República cujo governo clama ter criado perto de 1 milhão de empregos no sector de Agricultura, Caça, Florestas, Silvicultura e Pescas.

Nyusi acrescentou que “durante o quinquénio que agora termina, homens e mulheres deste país deram o melhor de si para que o sector agrário tivesse logrado os resultados que hoje orgulhosamente celebramos e pudesse salvar o país da crise que intensamente vivia”.

“Lançamos hoje a campanha 2019/2020 olhando para a produção da agricultura diversificada, sustentável e competitiva. Esta é a missão para a presente época que irá consolidar todas as etapas anteriores referidas. Repito produção de agricultura diversificada, sustentável e competitiva”, enfatizou o Chefe de Estado reeleito para 2º mandato.

Banco de Moçambique e bancos comerciais discordam do Presidente Nyusi

No entanto o sector financeiro parece discordar. A moeda moçambicana, cujo câmbio está liberalizado e depende do mercado, continua a desvaloriza-se. Nesta quinta-feira (31) foi cotado a 63,42 por cada dólar norte-americano, quase 2 Meticais mais caro comparativamente ao início da campanha para as Eleições Gerais.

Ainda nesta quinta-feira (31) a Associação Moçambicana de Bancos divulgou que a Prime Rate do Sistema Financeiro não vai baixar durante o mês de Novembro, mantendo-se nos 18 por cento estabelecido no início de Outubro, sem esperar pelas decisões do banco central que, reunido nesta quinta-feira, decidiu suspender a descida das suas taxas de referência.

“O Comité de Política Monetária (CPMO) do Banco de Moçambique, reunido hoje, dia 31 de Outubro de 2019, em Xai-Xai, decidiu manter a taxa de juro de política monetária, taxa MIMO, em 12,75 por cento”, indica um comunicado recebido pelo @Verdade.

O CPMO: “Decidiu, igualmente, manter as taxas da Facilidade Permanente de Depósitos (FPD) e da Facilidade Permanente de Cedência (FPC) em 9,75 por cento e 15,75 por cento, respectivamente, bem assim os coeficientes de Reservas Obrigatórias (RO) para os passivos em moeda nacional e em moeda estrangeira em 13,00 por cento e 36,00 por cento, respectivamente”.

“A decisão de manter a taxa MIMO é fundamentada pelos receios de que o agravamento recente dos riscos internos e externos possa, a médio prazo, reverter o perfil actual de inflação baixa e estável. Os riscos que mais se destacam nessa avaliação são, a nível doméstico, o agravamento da instabilidade militar nas zonas norte e centro do país, e a ocorrência de choques climatéricos; e, a nível externo, a intensificação da tensão comercial e geopolítica”, argumentou o banco central.

Contudo banqueiros ouvidos pelo @Verdade explicaram que a economia real não está a recuperar, apesar dos discursos políticos. A economia continua a produzir pouco, as importações estão a aumentar agravando o défice da balança de pagamentos. Os nossos entrevistados clarificaram que embora tenham sido anunciados grandes investimentos para o sector da indústria extractiva e o pagamento de Mais-Valias ainda este ano são fluxos financeiros desconectados da economia real e por isso pouco influenciam efectivamente na retoma.

Os banqueiros recordaram que mesmo o Banco de Moçambique, nos seus comunicados financeiramente codificados, tem declarado que em termos de Política Monetária já fez quase tudo o que podia para baixar o custo do dinheiro e que é necessário que o Governo faça a sua parte através de políticas fiscais que dinamizem a economia, particularmente as Pequenas e Médias Empresas, ressalvando que o pagamento das dívidas atrasadas do Estado nem chegam a ser paliativos.

Um dos banqueiros confidenciou ao @Verdade que a melhor notícia do ano para a economia foi o acordo de reestruturação da dívida inconstitucional e ilegal da EMATUM, fechado nesta quarta-feira (30) pelo Governo com os credores, pois irá melhorar a posição de Moçambique nos mercados financeiros onde está rotulado de “país caloteiro”.

“Temos de começar a fazer substituição de importações fazendo ligações dentro da economia”

Numa entrevista recente ao @Verdade o economista Carlos Nuno Castel Branco explicou que “o sentido de diversificação que algumas pessoas estão a pôr não é diversificação nenhuma, é dizer agora temos carvão, gás, bananas, tabaco, açúcar e energia eléctrica vamos também exportar chá e café. Isso é simplesmente aumentar o número de produtos primários que a economia está a produzir para exportar”.

“A diversificação significa que as especialidades da economia se aprofundam e expandem, não é só que há mais actividade. Temos de começar a focar não apenas na mercadoria em bruto para exportar mas como é que se desenvolvem ligações dentro da economia, o tecido económico tem que ficar mais denso, mais ligado, nós temos de começar a produzir para a produção, começar a produzir para a alimentação. A nossa alimentação é importada, as nossas matérias-primas importamos, os nossos produtos intermédios importamos, as nossas máquinas importamos, as nossas peças sobressalente importamos, temos de começar a fazer essa substituição de importações fazendo ligações dentro da economia”.

É verdade que a inflação baixou contudo porém o custo de vida não reduziu para os preços anteriores a crise despoletada em 2016 com a descoberta das dívidas inconstitucionais e ilegais.

O Instituto para Pesquisa sobre Desenvolvimento Económico da Universidade das Nações Unidas, que em Moçambique trabalham em estreita colaboração com o Governo, estimou que “o custo de compra da cesta básica refletidas nas linhas de pobreza pode ter aumentado entre 55 por cento e 70 por cento entre 2014/15 e Dezembro de 2016, superando a inflação registada no período. Esse aumento atingiu todas as áreas do país”.

 

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