Morreu Marcelino dos Santos, um dos fundadores da FRELIMO que por causa da cor da pele nunca chegou a Presidente de Moçambique (1929 - 2020)
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Escrito por Adérito Caldeira  
Terça, 11 Fevereiro 2020 22:54
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Faleceu nesta terça-feira (11) Marcelino dos Santos, vítima de doença, a poucos meses de comemorar 91 anos de idade. Um dos fundadores da Frente de Libertação de Moçambique, combatente da Luta Armada, Governador provincial, ministro, presidente da Assembleia Popular, nunca chegou a Presidente da República, acredita-se por causa da cor da sua pele e da mulher com quem casou-se. Usando a poesia declarou o seu amor à pátria pela qual lutou incansavelmente: “Oh Moçambique, meu país bem amado”.

No lento balancear das palmeiras

torcendo-se em movimento melancólicos

eu canto-te o meu amor

 

No saltitar contente

dos peixes trazidos nas redes

dos homens que vêem do mar

eu canto-te o meu amor

 

Na lua que vem escutar o tam tam

a voz de meus irmãos

eu canto-te o meu amor

 

No xirico traquino

cantando o sol nas gotas de suor

do meu dorso nú

eu canto-te o meu amor

 

@VerdadeBrincando nos ramos das mangueiras e dos cajueiros

na ânsia de colher o fruto mais alto

eu canto-te o meu amor

 

Correndo nos caminhos

brincando com uma de meia

e uma enxada nos campos de milho e amendoim

eu canto-te o meu amor

 

Nas correntes que me prendem os pés, as mãos e a voz

e cerram o lírio vermelho do meu coração

eu canto-te o meu amor

 

Quando vendido as minas do Transval pelos senhores

eu volto em cada grão

de poeira de carvão

eu canto-te o meu amor

 

Quando o meu corpo se confunde com o cimento

e as casas e as estradas são da cor do meu sangue

eu canto-te o meu amor

 

Quando cada moeda

caindo nos cofres da civilização

é o grito de uma mãe chorando a morte do seu filho

eu canto-te o meu amor

 

E pela força desse mesmo amor

oh Moçambique

meu país bem amado

 

Oh minha terra querida

que séculos de escravidão

foram impotentes para calar o teu coração

 

Que séculos de escravidão

apenas tornaram mais forte a força da tua razão

eu ergo o meu braço

e forte do humano ódio

daquele que não quer ser escravo porque é homem

 

Empunharei de novo a minha lança

e destruirei esse monstro

que engendrou homens

cuja existência não tem manhã humanas

 

Esse monstro que criou homens inimigos do homem

esse monstro que no desespero da sua agonia

absorve ainda sangue quente das suas últimas vítimas

 

Oh Moçambique

meu país bem amado

os teus filhos entoam já este canto

que percorre a África inteira

 

Este canto nascido do ódio

à escravatura

à fome

à miséria

 

Este canto de esperança

este canto de certeza

este canto do amor natural

 

Do Lumbo à Herói Nacional

Estas são palavras do poeta e revolucionário nascido no Lumbo, na Província de Nampula, a 20 de Maio de 1929. Marcelino dos Santos cresceu na Cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, até aos 18 anos de idade rumar para Portugal para fazer os estudos superiores. Acabou por formar-se em Ciências Económicas e Sociologia na Universidade de Sorbonne, em França.

Arquivo Em 1957 participou da fundação do Movimento Anti-Colonial, três anos mais tarde tomou parte na criação da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas e tornou-se membro da União Democrática Nacional de Moçambique (UDENAMO).

Aos 33 anos de idade trabalhou ao lado de Eduardo Mondlane na união dos principais movimentos de resistência à ocupação colonial de Moçambique que culminou com o surgimento da Frente de Libertação de Moçambique, cujos estatutos é lhe atribuída a paternidade.

Em 1964 exerceu o cargo de secretário para os assuntos externos e com o assassinato de Mondlane foi eleito para o triunvirato que dirigiu a FRELIMO, ao lado de Uria Simango e Samora Machel. Entre 1969 e 1977 exerceu o cargo de vice-presidente da então Frente de Libertação.

Foi o primeiro ministro da Planificação Económica, em 1983 ocupou o cargo de Governador da Província de Sofala, durante os mais conturbados momentos da guerra civil, antes de ser indigitado em 1989 para presidir o primeiro Parlamento do nosso país na altura denominado Assembleia Popular, até ao início do multipartidarismo em Moçambique.

Um dos poucos quadros da FRELIMO com formação superior, de experiência reconhecida e com conhecimentos e contactos mundiais na altura da independência Marcelino dos Santos deixa a percepção que só não chegou a Presidente da República devido a cor da sua pele e da mulher que escolheu amar, uma cidadã sul-africana branca.

Devido a ausência do Presidente Filipe Nyusi e do seu Governo da capital do país, estão em Cabo Delgado, não foi ainda declarado Luto Nacional nem são conhecidos os detalhes do último adeus a Marcelino dos Santos, declarado Herói Nacional em 2015.

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Actualizado em Quarta, 12 Fevereiro 2020 10:57
 
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