Kerygma: Somos todos mestiços – Grande Bênção
Vozes - @Hora da Verdade
Escrito por Cremildo Bahule  
Quinta, 15 Maio 2014 14:42
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Que nós vivemos um momento de diversidades, nas mais díspares linhas e nuances, ainda é opaco para muita gente. As sociedades de hoje são tão híbridas como o arco-íris. Mesmo aquelas colectividades que parecem ser exóticas e não foram contaminadas pelos devaneios do tempo, pela maldade da globalização e pela demolidora americanização, na sua forma de estar e de perspectivar o mundo, têm a sua ilharga misturada.

Estas amálgamas culturais fizeram-se com o curso do tempo. Contudo, muitos ainda não perceberam que Moçambique é um país miscigenado nas suas mais diferentes formas. Atenção! Não quero centrar o meu trecho na raça por ter usado a palavra “miscigenado”. A minha reflexão centra-se no aspecto etnolinguístico.

Ainda é comum, nos caminhos que percorremos, ouvir frases como: “Esses machanganas são gingões” ou “esses guitongas são trapaceiros”; “esses mandaus são confusos” ou “esses macenas são nojentos”; “os macuas querem esmordaçar o país” ou “os makondes são rebeldes”.

Exemplos pejorativamente construídos são lemes para aniquilar a presença do outro. E nós, os moçambicanos, ainda assentamos as nossas identidades e a identificação do outro nessas margens. Infelizmente, ainda solavancamos entre as lógicas de que há “machanganas” e “xingondos”. Isto é fruto de uma interlocução política que teve inclinações étnicas difusas.

O que mais desagrada, neste enredo todo, é que a escola tornou-se o lugar, por excelência, para perpetuar essa poluída realidade. A escola tem sido o palco da reprodução social desta realidade. Nela, as diferenças étnicas são propagadas como se fossem uma verdade absoluta. É preciso insistir na comunhão da diversidade. Temos de repetir, vociferar sem cansar, que a diversidade étnica não é crime. A diversidade etnolinguística é uma bênção e não é nenhum pecado. Devemos acreditar que a beleza do nosso país assenta na diversidade étnica e, consequentemente, linguística.

A mestiçagem étnica e idiomática é uma realidade inerente a todo o moçambicano. É melhor apagarmos das nossas memórias que há moçambicanos de gema. Querendo provar que a diversidade etnolinguística é uma bênção vou recorrer a um exemplo bíblico. Por exemplo, no livro de Génesis (Gn. 11, 1-9), na Bíblia Sagrada, encontramos um relato sobre a “tentação do poder totalitário”, mas conhecido como o relato sobre a “torre de Babel”.

Esse relato bíblico, de tradição Javista, para os cristãos e outros fiéis de outros credos religiosos, tem diferentes interpretações: o início de uma praga, uma maldição, início de diversos pecados linguísticos, início da confusão das línguas e o princípio da vergonha do pluralismo glótico ou multilinguístico. Se para os fiéis, sejam eles cristãos ou não, é um pecado, para os cientistas, de forma particular para os linguistas, pode significar o início de uma bênção linguística. Eu prefiro depositar a minha fé na “bênção linguística” e não no “pecado linguístico”.

(Religiosos, se peco na análise, absolvam-me. Linguistas puritanos, se errei, corrijam-me, por favor). Examinando os dois pensamentos anunciadas no parágrafo anterior, por causa da sua diversidade linguística, podemos considerar Moçambique uma região amaldiçoada ou abençoada linguisticamente? Porque sou um ente positivista, continuo a acreditar, sem me confundir, que Moçambique é um país santificado linguisticamente.

Moçambique, para além de ser um país multilingue, é multi-étnico, é multicultural. E, se quisermos ser democráticos é, também, um país multipartidário. Eis, sem nos determos no número das mesmas, as línguas que o nosso país possui: Kiswahili, Kimwani, Ciyao, Emakhuwa, Shimakonde, Ekoti, Elomwe, Echuwabo, Cinyanja, Cinsenga/Nsenga, Cisena, Cinyungwe, Cishona, Citewe, Cindau, Cibalke, Xitshwa, Xitsonga, Xirhonga, Cicopi, Gitonga, Zulu, Swazi, Phimbi. (Estou consciente de que existem variantes e outros idiomas que aqui não foram mencionados). Sem entrar em plataformas depreciativas, Moçambique está aferrado numa bendição do plurilinguismo.

Essa coerência tornou-se um instrumento fundamental e catalisador – a língua como uma ferramenta identitária. Apesar do processo histórico de colonização com que Moçambique conviveu, as línguas autóctones serviram de base para a construção de um indivíduo que se podia afirmar através do seu idioma. As línguas, descaindo nas funções descritiva, comunicativa e de estimação vital, desempenham no nosso país uma plataforma de robustez identitária

Por estas e outras razões, mais elaboradas, devemos acreditar que nós vivemos num país de mestiçagem linguística. Depois de muitas voltas, termino como comecei: todos nós somos mestiços. Somos cultural e linguisticamente híbridos. As nossas etnias não nos dão legitimidade para dizermos que há “moçambicanos de gemas” e outros “falsos”. Devemos caminhar distante dessas catalogações dialogísticas que nos separam. Num sentido positivista, a palavra de ordem deve ser: “Eu sou um moçambicano miscigenado culturalmente”. Que assim seja.

OBSERVAÇÃO: Lembremo-nos de que tempos difíceis se aproximam. Crises políticas podem ser a alavanca para embarcarmos por esse comboio das diferenças etnolinguísticas. Repito: é preciso termos alguma serenidade para ultrapassar as diferenças sem usar sangue para regar o solo e as plantas no país. Não falo de paridade, mas na sensatez do respeito pela diferença.

Cremildo Bahule

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Actualizado em Quinta, 15 Maio 2014 15:07
 
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