SELO: O professor é culpado? - Por Alcides Gaspar Bazima
Vozes - @Hora da Verdade
Escrito por Redação  
Quinta, 11 Junho 2015 07:53
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Ser professor, hoje, é uma tarefa bem difícil, mas prazerosa.  O professor precisa de se dedicar aos estudos, à pesquisa, ao seu desenvolvimento profissional e aos seus alunos.

Como mediador de aprendizagem, ele participa activamente do processo de ensino, incentivando a busca de novos saberes. Ser docente, hoje é, principalmente, saber, todo o dia, como renovar a profissão, pese embora isso já não tenha espaço pois o professor moçambicano anda frustrado e mantém-se na profissão por falta de alternativa.

Esta é a profissão que já deixou de ser prestigiante, pois a maior parte dos jovens oriundos das faculdades acaba por abraçá-la como uma “retaguarda” segura. Pois, segundo eles, o pedagogo não prospera.

Notamos que a profissão de docente é uma das mais difíceis, pois temos desafios todos os dias, tais como ensinar o aluno a pensar, a pesquisar, etc. Mas, hoje, no nosso país todos apontam o dedo acusador ao professor pela baixa qualidade de ensino, sobretudo pelo baixo desempenho. Vozes de todos os lados gritam que ele é o “mau da fita”.

Todos falam e criticam, mas esquecem-se dos especialistas da educação deste país, que são responsáveis pelas constantes mudanças de currículos no Sistema Nacional de Ensino. De cinco em cinco anos o currículo muda e o professor é tido como responsável pelos fracassos. Ele deve adaptar-se a tudo, a orientações que chegam de hora em hora nas instituições a que está afecto, seguindo o lema “decisão tomada, decisão cumprida”.

No âmbito das auscultações feitas pelo ministério que superintende a Educação no país, Graça Machel teceu duras críticas ao professor e afirmou que ele não sabe nem falar o português, o que é um sinal de que as coisas não estão bem por culpa do professor. Noutros debates posteriores, a maioria, principalmente os políticos, atacou o coitado docente sem complacência.

Afinal, meus digníssimos, quem implementou o formato de passagens automáticas no ensino básico, o qual propiciou que as crianças chegassem a classes avançadas sem saberem ler nem escrever, muito menos escreverem os próprios nomes? Será que o professor só deixou de saber ensinar quando se introduziu o novo currículo e deixou de ter conhecimentos?

Sou fruto do currículo dos anos 1987/88/89 no ensino básico. Até a 2ª classe eu já sabia ler, escrever e levava boa tareia na escola para conhecer a tabuada. Tínhamos exames no final de cada classe. Quem não sabia chumbava e até chorava. Uma criança com um boletim de passagem saltitava, exibia-o e ficava fortemente emocionado enquanto os colegas derramavam lágrimas por reprovação. Isto era a sério. A dedicação era maior e os pais, na altura, controlavam todo o processo de ensino. A porrada era em casa e na escola caso o aluno apresentasse uma prova com uma negativa.

Hoje, as coisas mudaram. Os alunos estão embrulhados nos regulamentos e currículos que os protegem. São alunos acarinhados e protegidos.

Actualmente, o professor não deve chumbar uma criança na 1ª classe nem na 3ª, 4ª e 6ª classes, mesmo que ela não saiba nada. É proibido. No secundário é inibido reprovar um número elevado de estudantes. O professor tem de fazer alguma coisa com vista a melhorar os resultados para deixar de ser o “mau da fita”. Ou seja, a percentagem de passagem de classe tem de estar acima de 50%, custe o que custar. No fim das contas, não interessa se o aluno sabe ou não. Os números é que contam e o relatório deve  agradar. Perante tudo isto o professor é o culpado, não sabe nada, ensina mal e não planifica os instruendos como deve ser.

É este professor que inventou o sistema de formação baseado em 10ª +1 e 7ª+3? Que aluno se espera no final duma 7ª e 10ª classes enquanto nas classes anteriores passou sem saber? E é este mesmo aluno que mais tarde abraça a profissão?

Hoje reclamamos do desempenho dos docentes que resultam deste modelo de formação numa altura em que a Universidade Pedagógica possui muitos licenciados na “bancada” à espera duma oportunidade para leccionar, pese embora nos dias que correm se duvide, também, da qualidade do nosso licenciado! As universidades viraram autênticos “dumba-nengues”, onde o que está a dar é o negócio das mensalidades, um problema que afecta também as instituições públicas, no pós-laboral.

Qual das universidades vai reprovar um “cliente” que desembolsa cerca de 7 mil meticais por mês? Por isso, digo, com toda a sinceridade, que as passagens automáticas também chegaram ao ensino superior, o que já é um perigo para o futuro do nosso povo maravilhoso.

Hoje, assistimos a graduações de estudantes licenciados e mestrados em números assustadores. Já não é orgulho ser licenciado, porque, estranhamente, diariamente, saem licenciados das universidades. Basta entrar na faculdade é só contar os anos a dedo para ter o diploma, principalmente nas universidades privadas. Quem é o culpado? Que licenciado é este? E a culpa é só do professor? Quem manda e orienta o docente universitário? Ele baseia-se em que currículo? Esta situação só me lembra o que se passa no futebol: quando os resultados são maus, o sacrificado é o treinador. Na educação é o contrário, a pessoa que elabora o currículo, o especialista e o instrutor ficam impunes. O professor é o culpado!

No entanto, todos os dias, todas as famílias, relacionam o dia-a-dia da educação directa ou indirectamente com o professor. Em quase todas as famílias, quando o sol nasce a missão é levar a criança para a escola, o pai ou a mãe à noite também vai à escola ou à faculdade, etc. Todos os dias precisamos do professor. Do médico precisamos quando estamos doentes ou alguma coisa não vai bem no nosso organismo. Nem  todos os dias vamos ao hospital, mas aprendemos todos os dias. Então, porque não melhorarmos as condições do professor? Há dois anos, o médico exigiu e teve aumento salarial na ordem de 15% e, recentemente, mais 13%. No mesmo período, o professor teve um acréscimo de 9% e em Abril deste ano teve apenas 5%.

Porque não acusamos a todo o sistema que está a falhar e apontamos o professor como o único culpado, apesar de que ele está desmotivado pelo magro salário que aufere e trabalha em péssimas condições?

Por Alcides Gaspar Bazima

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