SELO. Combate às alterações climáticas e combate à fome devem andar de mãos dadas - Por José Graziano da Silva *
Vozes - @Hora da Verdade
Escrito por Redação  
Quarta, 02 Dezembro 2015 08:42
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Um apelo à acção

A 21ª Conferência do Clima (COP 21), que se realiza em Paris depois dos recentes ataques terroristas, é uma nova oportunidade para a comunidade internacional se unir e mostrar o seu compromisso com a Agenda 2030 e com os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) como a forma mais adequada de promover um mundo mais justo, mais seguro e mais inclusivo, onde ninguém é deixado para trás.

Não haverá paz sem desenvolvimento sustentável. E nunca haverá desenvolvimento sustentável enquanto as pessoas continuarem a sentir-se excluídas e a sofrer de extrema pobreza e fome.

Uma solução para um mundo melhor deve envolver todos. É disso que trata a Agenda 2030: universalidade, solidariedade e inclusão.

Os 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável estão interligados. As alterações climáticas são provavelmente a questão que melhor representa essa ligação.

O ODS 13 aborda especificamente as alterações climáticas. Determina que os países devem tomar medidas urgentes para combater as alterações climáticas e os seus impactos. Não fazer isso seria pôr em risco o cumprimento de todos os outros ODS, em particular a luta contra a fome.

Não é possível dissociar a erradicação da fome no mundo da necessidade de reduzir os efeitos nocivos das alterações climáticas na segurança alimentar e nutricional. Os países que se vão reunir para as negociações da COP 21 devem ter isso em mente.

Em tempos apenas um sonho, um mundo sem fome está agora ao nosso alcance. Possuímos tecnologia e sabemos quais as políticas e acções que melhor funcionam.

No entanto, as alterações climáticas, incluindo a ocorrência mais frequente de eventos climáticos extremos, representam uma barreira que fica no caminho da realização deste objectivo.

O aquecimento global afecta a produção de alimentos – as colheitas de culturas básicas estão a diminuir e, em 2050, quedas de 10 a 25 por cento e superiores serão provavelmente generalizadas. Ao mesmo tempo, secas, inundações, aumento do nível do mar e furacões ameaçam cada vez mais a vida e o sustento das pessoas mais vulneráveis. Estas catástrofes climáticas contribuem fortemente para as perdas económicas e os deslocamentos populacionais. Ao mesmo tempo, a população mundial continua a crescer. E está a crescer mais rapidamente nos países mais vulneráveis às alterações climáticas.

As alterações climáticas estão a pôr em risco os meios de subsistência e a segurança alimentar das pessoas mais pobres do mundo, das quais 80 por cento vivem em áreas rurais e dependem da agricultura, silvicultura e pesca. Precisamos de um quadro global de apoio ao desenvolvimento e crescimento, enquanto preservamos os recursos naturais do nosso planeta, especialmente nas áreas rurais.

Os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável são uma parte central deste quadro. Para complementá-lo, os países vão reunir-se em Paris para negociar um novo acordo global sobre o clima, que pretende limitar o aumento da temperatura global para menos de 2 graus celsius.

O objectivo global da FAO é garantir que a segurança alimentar e a segurança alimentar adequada para todos permaneçam firmemente no centro do debate sobre as alterações climáticas. Os países devem ser capazes de implementar soluções e também de ampliar medidas de adaptação e mitigação. Para este fim, o quadro de Paris deve apoiar a transferência de tecnologia, o desenvolvimento de capacidades, bem como a mobilização de fundos.

Tais esforços beneficiarão todos. Em particular, devemos reforçar os meios de subsistência dos pequenos agricultores, pescadores e silvicultores que estão em maior risco de insegurança alimentar e estão a ser desproporcionalmente afectados pelas alterações climáticas, sobretudo em pequenos estados insulares em desenvolvimento, países sem litoral e regiões áridas e semiáridas. Para eles, adaptação é sinónimo de garantia de segurança alimentar. Agricultores, pescadores e silvicultores – em pequena ou grande escala, em países desenvolvidos ou em desenvolvimento – são mais do que produtores de alimentos. Eles são guardiões da Terra, e como tal, ajudam a gerir os recursos naturais em nome de todos nós. Eles são, portanto, fundamentais para a solução e não podem ser obrigados a suportar sozinhos o fardo e o custo de lidar com os efeitos das alterações climáticas.

A FAO está empenhada em contribuir com os seus conhecimentos técnicos e experiência para apoiar as pessoas, especialmente em áreas rurais, rompendo com os ciclos da fome e da pobreza, em particular face às alterações climáticas. Parcerias fortes são a base para a partilha de conhecimentos e recursos em questões de desenvolvimento. Agora é a hora de estabelecê-las. Só através de uma estreita cooperação podemos garantir que o progresso em prol da segurança alimentar não é comprometido pelos impactos das alterações climáticas.

É imperativo que tenhamos as nossas prioridades definidas e que coloquemos a segurança alimentar em primeiro lugar. Temos de reconhecer que os sectores agrícolas, incluindo a pecuária, a pesca e a silvicultura – dos quais depende a maioria das pessoas pobres do mundo – e as alterações climáticas estão estreitamente interligados e que as soluções devem beneficiar ambos.

Simplificando: alcançar a segurança alimentar e a nutrição adequada para todos numa população crescente e num clima em mudança, com recursos limitados, significa que temos de aprender a produzir mais com menos. Esta é um apelo à acção.

Por José Graziano da Silva

* Director-Geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)

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