SELO: Erróneas concepções da felicidade - por Keed Mondlane
Vozes - @Hora da Verdade
Escrito por Redação  
Quinta, 03 Dezembro 2015 08:33
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As ideias me chegam em fragmentos, não sei por onde começar a discorrer sobre este assunto, a única vantagem de ser um escritor é o facto de não estar comprometido com as regras, sim nós os escritores não somos obrigados a estruturar as nossas ideias em introduções, desenvolvimentos, conclusões… nem somos obrigados a identificar se estamos a pensar de forma narrativa, jornalística, literária, científica… ou seja lá o que for, mesmo estando consciente de todas essas regras somos obrigados a ignora-las, isso para poder deixar um espaço para os literatas, esses que se intitulam donos da literatura, na qualidade de bom escritor tenho de fazer de contas que não conheço as regras e fazer tudo de forma desregrada para que o literata venha aplicar os seus conhecimentos críticos adquiridos em 5 anos de universidade, já imaginaram vocês se tivesse que fazer tudo aos conformes, que importância teria o literata para a literatura?

A literatura assemelha-se a política, temos por um lado o político e por outro o politólogo, o primeiro é sempre obrigado a fazer de contas que não sabe nada sobre a essência da política, deve sempre “fazer a política” de forma descomprometida com os procedimentos científicos, para que o politólogo tenha emprego, vou parar por aqui, pois esse não é o assunto que me fez pegar no papel e na caneta hoje.

Para falar sobre o assunto de hoje começaria por usar das palavras de Mia, esse que é pra mim um grande homem, digo grande homem não porque todos o dizem, mas simplesmente pelo facto dele ter o nome que tem e continuar a pensar, o maior problema de muitos intelectuais do nosso país é que eles apenas pensam para ter “nome”, e quando já tem nome param de pensar e fica tudo sob a nossa responsabilidade, eles aparecem e falam qualquer coisa e cabe a nós pegarmos naquilo que o intelectual disse interpretarmos e conferimos a ele a autoria de tudo, quem nunca ouviu alguém a interpretar ideias de um intelectual que apareceu na televisão a dar um parecer sobre um determinado assunto, por mais que esteja evidente que o intelectual falou disparates ouvimos as pessoas dizendo “o Doutor fulano tentou dizer, sim o Doutor quis dizer”… digo Mia Couto é grande homem porque ele aparece sempre a dizer e não a “tentar dizer”.

Mia Couto disse outro dia que o maior problema que a nossa sociedade enfrenta actualmente é o medo que as pessoas tem de ficar sozinhas, nós temos medo de dialogarmos com nós mesmos, tanto é que quando chegamos as nossas casas sem que alguém esteja a primeira coisa que fazemos é pegar no controle remoto da televisão e ligamos a televisão não porque gostamos dela, mas porque encontramos no mundo virtual um lugar que nos coloca distes da introspecção.

A ausência dessa introspecção em nossas vidas tem consequências muito drásticas, se não estabelecemos um constante dialogo com nos mesmo nunca saberemos o que precisamos para que possamos ser felizes, o que acontece muitas vezes é que a definição daquilo que é essencial nas nossas vidas, a definição do que precisamos para a nossa própria felicidade é feita em função do que muitos acham importante em suas vidas, posso até ter a namorada que me agrada que é bonita aos meus olhos, mas se os demais não compartilham da mesma ideia vou descarta-la para encontrar aquela que todos são unânimes sobre a incontestável beleza dela e o mais engraçado é que o tamanho da sua beleza é proporcional ao tamanho da sua burrice e vadiagem, a nossa colectiva ilusão sobre a felicidade, faz de nós um bando colectivo de infelizes, falamos diariamente sobre a felicidade alguns de nós espalhamos por aí que somos felizes, outros dizemos que não somos, outros ainda acusamos os “outros” de não serem felizes por terem muita fama ou dinheiro, mas os ridículos de todos são aqueles que vivem, procurando a desgraça alheia para comparar a sua própria desgraça e concluir que são felizes, “eu sou feliz da vida, não me imagino como conseguiria viver se estivesse na situação do fulano”, essas todas são formas erróneas de conceber a felicidade, pois ela nunca foi e nunca será um dado acabado, a felicidade é algo que devemos buscar diariamente sem nos cansarmos, nós alcançamos a felicidade quando tomamos a consciência de que não a temos e por isso mesmo há uma necessidade de irmos em busca dela, mas a perdemos quando pensamos que somos donos dela daí que não precisamos mais nos esforçarmos por ela.

A felicidade é como o poder político, o político concorre para que seja eleito, e quando é eleito tem um desafio incessante de provar ao povo que o elegeu, que ele é a pessoa certa para estar no poder, pois se não fizer isso ele irá perder a legitimidade do povo e não será reeleito ou por outras palavras será retirado do poder…

Por Keed Mondlane

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Actualizado em Quinta, 03 Dezembro 2015 09:14
 
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