SELO: Da tristeza para a tristeza - Por Joel Amba
Vozes - @Hora da Verdade
Escrito por Redação  
Quinta, 28 Junho 2018 08:11
Share/Save/Bookmark

Ramadani, era um jovem dos seus 19 anos de idade e mais velho do que os seus dois irmãos. Um dos irmãos do Ramadani tinha 9 anos de idade e frequentava a sua 1ª classe, o outro de 15 anos frequentava a 7ª classe e Ramadani estava a fazer apenas 8ª classe. Todos estes rapazes, foram nascidos em Cabo Delgado, no distrito de Ancuabe. Após certos anos, Ramadani foi perdendo seus familiares mais próximos e até num dado ano, perdeu também os seus pais, que tanto davam o apego e o sustento.

Não tinha mais quem o pudesse ajudar. Num certo dia, ele decidiu deixar os seus irmãos que estavam a estudar e viajar para Pemba, atrás do emprego.

Chegado a Pemba, ainda tinha algum valor que o pai em vida escondera nos seus sapatos e que eram de apenas 400,00 Meticais. Com este valor, ele tinha de fazer algum pequeno negócio, de modo a manter sempre alguns meticais nos bolsos, para casos de emergência. O jovem, usou o seu valor para comprar recargas de algumas redes telefónicas para vender.

Ramadani não tinha onde morar, aliás, morava nos passeios das ruas de Pemba, principalmente na Avenida 25 de Setembro, onde assistia os carros passando em altas velocidades, como se fossem aviões a descolar da pista. Ramadani era confundido com ladrão ou um menino da rua, mas ele sabia o que queria e nunca pensara em fazer mal algum nas pessoas.

Três dias depois de tentar adaptar-se à cidade, decidiu ir atrás de um emprego que poder-lhe-ia sustentar e ajudar os seus irmãos em Ancuabe. Foi batendo de porta em porta no bairro de Ingonane e teve insucesso. Foi ao bairro de Cariacó, também teve insucesso e, por fim, até que a sorte lhe apareceu no bairro Cimento, em casa de alguns senhores donos ”mwenhes” de algumas lojas na cidade.

Não sabia cozinhar perfeitamente mas cozinhava, não sabia lavar a roupa devidamente mas lavava, não sabia varrer como deve ser mas varria. De tantas falhas que ia tendo, por vezes era agredido por palavras dos patrões. Ele chorava mas não tinha como!...

O Ramadani devia trabalhar de todas as melhores formas para manter um dinheiro mínimo que pudesse ajudar os seus irmãos a continuar com os estudos e a ter alimentação, pois, os irmãos dependiam apenas dele. Com os 1.500,00 Meticais que recebia mensalmente, o jovem pedia aos patrões para guardar-lhe 1.000,00 Meticais sempre que era pago o seu salário e, desta forma, recebia apenas 500,00 Meticais para usar na compra de alguma coisa para comer e, de vez em quando, conseguir enviar uma parte do valor aos seus irmãos. Ramadani tinha que, por vezes, comprar algo para comer, pois, na casa dos patrões não era permitido comer nada, senão beber a água. Ramadani obrigatoriamente fazia jejum!...

Durante muitos dias, Ramadani sentia fome, passava mal mas agradecia por ter um lugar para dormir e para trabalhar. Depois de quatro meses, o rapaz não conseguiu suportar, viu que tinha de deixar aquele trabalho e procurar encontrar um outro melhor e boas condições de vida. Estava difícil de tomar a decisão, porque não foi fácil ter o emprego.

De forma repentina, durante alguns minutos o jovem sentiu-se mal e começou a manifestar algo parecido com convulsões e, logo ‘’pahaa!...’’, ficou desligado e deitado no chão.

Os patrões, preocupados e afligidos, levaram-no ao Hospital Provincial. Eis que o flagelo lhe tenha batido a porta: o rapaz morre vítima de uma doença arreliadora e repentina.

Passado o dia todo, um dos mais novos irmãos do perecido, liga na tentativa de saudar o mais velho. Do outro lado da linha, atende o patrão, de forma muito triste, anunciando o desaparecimento físico do irmão.

Este foi o preço do sustento dos irmãos de um jovem ingénuo e com punho no lugar, que a maior parte do seu salário era sacrificado para os seus irmãos mais novos que dele dependiam, e este salário custou a sua morte.

Os irmãos do Ramadani, passaram da tristeza de perca dos seus pais que os sustentavam, para a tristeza da morte do irmão que os poderia suportar. Se eu tivesse espaço de palavra na Assembleia da República, defenderia o Ramadani como mais um herói local!... Que descanse o Ramadani, na paz dos justos!

Por Joel Amba

Comentar


Código de segurança
Atualizar

 
Avaliação: / 1
FracoBom