SELO: O azar do Vandole - Por Joel Amba
Vozes - @Hora da Verdade
Escrito por Redação  
Segunda, 09 Julho 2018 21:39
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Não tinha nada para dizer, mas desenvolveu na sua mente, a ideia de que para ser eleito ou nomeado para uma certa função, devia ser visto muitas vezes a falar, não importa o que fosse. Para o Vandole, o bom desempenho no trabalho era secundário mas o “ser visto” era crucial.

Durante a reunião, viu muita gente a se levantar e a colocar as suas ideias e, a ser aplaudida. Achou que era mais uma oportunidade para promover a sua imagem naquele partido. Levantou a mão para pedir a palavra ao que o chefe o concedeu. Ajeitou a sua camisa amarfanhada pela motorizada, seu meio de transporte, enquanto marchava para a frente do público partidário.

Chegado no local e face-a-face ao público, deu vivas ao país; deu vivas ao Presidente da República; deu vivas ao partido; deu vivas ao distrito; deu vivas a todos membros do partido aí presentes e, finalmente, ficou com o punho ao ar, fez girar o seu pescoço e a cabeça acompanhou o movimento, procurando a quem mais dar vivas. Vendo que não se recordava de mais ninguém, disse:

“Caros irmãos, levantei-me para dizer que não tenho nada para dizer, mas apenas dizer que as minhas ideias foram ultrapassadas com a intervenção dos irmãos que me antecederam!...”

Os mais informados sobre o vandolismo, entenderam que ele era um “vandole” e minimizaram a sua pessoa. Entretanto, ele pensou que já tinha feito a sua campanha naquele ambiente, ou seja, já tinha sido visto. E a pessoa que se comporta deste modo, em Makonde, chama-se “vandole” e a sua atitude é o “vandolismo”.

O Vandole era um cristão, baptizado mas não ia à igreja. Pensou que no momento de eleições era importante que Deus o visse a frequentar o local da reza e não só, os irmãos da igreja alguns dos quais eram eleitores, poderiam influenciar para a sua victória. Achou que a melhor forma de se fazer vêr na igreja, era deixar toda gente entrar e ele ser último a entrar e fazer de contas que ia procurando o lugar para sentar. Assim, toda gente o veria.

O Salão Paroquial estava cheio de crentes, todos atentos à missa. O Vandole percorreu de assento em assento reparando a cada um para se certificar se as pessoas o viam bem. Muitos crentes o consideraram que estava a perturbar a missa enquanto outros o consideravam de atrasado.

Os mais informados sobre o vandolismo, entenderam que ele era um “vandole” e minimizaram a sua pessoa. Entretanto, ele pensou que já tinha feito a sua campanha na igreja e, tanto Deus como o Padre e os crentes já tinham o visto.

Um indivíduo tomado de espírito de vandolismo é como um feiticeiro: sozinho se convence que a sua ideia lhe trará victórias!...

Desta forma, o Vandole pensou: “Porque não irei fazer a campanha nos “chapas 100” já que há muita gente proveniente de vários pontos e categorias sociais; camponeses, pescadores, artesãos, funcionários de instituições do Estado, etc, que neles circulam?!...Aí, mataria com uma mesma flexa muitas gazelas!...

Assim, o Vandole se foi e entrou no chapa. Encontrou um ambiente calmo com uma música de um famoso cantor tocando ao fundo o que fazia os passageiros gostarem da viagem. Achou que tinha encontrado um clima muito bom para a sua campanha. Apesar de ele ter onde sentar, passeou no corredor do carro reparando e saudando a cada um dos passageiros como se fosse seu conhecido. E depois, introduziu a “desconversa”: “caros irmãos, se nós outros fosssemos dirigentes deste país, não iamos permitir machibombos onde uma filha senta com o seu pai como se de namorados tratassem. Ë que as cadeiras estão muito apertadas neste carro!...”

Ninguém mais via o que o Vandole dizia haver naquele carro, aliás, ele próprio sabia que não era para falar nada, mas sim, para ser visto. A música começou a ser perturbada e os passageiros começaram a pensar que aquele indivíduo “não batia 100”.

Os mais informados sobre o vandolismo, entenderam que ele era um “vandole” e outros pensaram que era um maluco. Porém, o Vandole registou na sua agenda que já tinha feito a sua aparição nos “chapas 100”.

E assim andou o Vandole de acção em acção despromovendo a sua imagem mas sempre convicto que estava num caminho certo. Ele ficou conhecido em todo lado como sendo um que tem problemas mentais enquanto que os conhecedores do vandolismo sabiam o que era.

No dia da votação, os eleitores internos daquele partido, por unanimidade sabiam que deviam eleger um candidato que fala pouco mas realiza muito trabalho, pontual, respeitoso e outras qualidades que o Vandole não tinha. Por esta razão, no dia da votação o Vandole só teve 1 voto a seu favor e acabou morrendo de desgosto.

Continua na próxima edição

Por Joel Amba

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