SELO: O professor e a disciplina na escola de hoje vs o dia 12 de Outubro de 2018 - Por Eduardo Fernando
Vozes - @Hora da Verdade
Escrito por Redação  
Quinta, 18 Outubro 2018 08:10
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É com a devida vénia que dirijo ao Presidente da República de Moçambique, na sua intervenção pelo dia dos professores do Rovuma ao Maputo e do Zumbo ao Índico. Sem discriminação e através dos professores, ele endereçou saudações a todos os profissionais da Educação, que trabalham nas escolas públicas, privadas e comunitárias de todo o território nacional, por ocasião do 37º aniversário da criação do Dia do Professor, que coincide com o ano da criação da própria Organização Nacional dos Professores (ONP).

O Presidente da República disse que o Dia 12 de Outubro não passaria despercebido, porque o professor é a “fonte de inspiração de conhecimento e facilitador do desenvolvimento de Moçambique”.

O presente artigo de opinião pretende explorar os conceitos de disciplina e de indisciplina, pela via do desenvolvimento moral e o construtivismo.

A problemática da disciplina/indisciplina é actualmente uma das questões mais discutidas por professores e está cada vez mais presente nas pesquisas e debates em educação com vista a compreender o fenómeno da indisciplina, pensando de forma preventiva.

A disciplina escolar é um conjunto de regras que devem ser obedecias tanto pelos professores quanto pelos alunos sem deixar de fora a direcção para que o processo de ensino e aprendizagem tenha êxito. Daí que, é uma qualidade de relacionamento humano entre os professores e os alunos na sala de aula e na escola.

Permitam-me trazer um conceito que gosto muito, o construtivismo que se traduz em ideia de que nada, a rigor, está pronto, acabado, e que, especificamente, o conhecimento não é dado, em nenhuma instância, como algo terminado. Ele se constitui pela interação do indivíduo com o meio físico e social, com o simbolismo humano, com o mundo das relações sociais. E constitui-se por força de sua acção. Na bagagem hereditária ou no meio, de tal modo que podemos afirmar que antes da acção não há psiquismo nem consciência e, muito menos, pensamento.

Construtivismo é, portanto, uma ideia, melhor, uma teoria, um modo de ser do conhecimento ou um movimento do pensamento que emerge do avanço das ciências e da filosofia dos últimos séculos. Uma teoria que nos permite interpretar o mundo em que vivemos. No caso de Piaget, o mundo do conhecimento: sua gênese e seu desenvolvimento.

O construtivismo não é uma prática ou um método, não é uma técnica de ensino nem uma forma de aprendizagem, não é um projecto escolar. É, sim, uma teoria que permite (re)interpretar todos esses elementos, debatidos dentro do movimento histórico, da Humanidade e do mundo. Não se pode esquecer que, em Piaget, o desenvolvimento e a aprendizagem sob o enfoque da Psicologia, só têm sentido na medida em que coincide com o processo de desenvolvimento do conhecimento, com o movimento das estruturas da consciência. Por isso, se parece esquisito dizer que um método é construtivista, dizer que um currículo é construtivista parece mais ainda.

Como qualquer relacionamento humano, na disciplina é preciso levar em consideração as características de cada um dos envolvidos no caso: o professor, o aluno e o ambiente escolar em que se desenrola o (PEA-processo de ensino e aprendizagem). O professor é essencial para a socialização comunitária e serve-se de quatro funções no exercício de seu munus:

1. Comecemos por trazer o professor propriamente dito. Para poder ensinar é necessário saber o que ensina. Isso se aprende no currículo profissional. Saber como ensinar: o professor precisa saber transmitir o que sabe. Pode ser um comunicador nato ou vir a desenvolver essa qualidade por meio da própria experiência.

2. O que gere e coordena as acções da turma e os alunos. Esta actividade não é habitualmente ensinada no currículo, pois exige um conhecimento mínimo de dinâmica de grupo, bem como noções de psicologia para manter a autoridade de gerir e coordenar. A sala de aula não pode ser vista como um consultório médico, escola não é clínica. Portanto na função de gestor de alunos, o professor tem que identificar as dificuldades existentes na turma para poder dar um bom andamento a aula.

3. O professor como parte do grupo dos professores. Um professor pode ouvir a reclamação de um aluno sobre outro professor e fazer com que chegue ao envolvimento para que este possa tomar alguma providência no sentido de responder adequadamente à reclamação. Ora, seria falta de lealdade estar a caluniar os colegas perante os alunos. Os professores devem ajudar-se mutuamente como fazem os estudantes. Se muitos queixam-se de um único professor, é sinal que algo vai mal ou existe alguma perseguição ou até porque algo está errado. A única forma de solucionar um problema é identificar o erro. Como todo o ser humano, o professor pode também estar errado. O facto de ser professor não é garantia de estar sempre certo.

4. Empregado de uma instituição ou servidor público e da nação a que pertence. Como todo empregado, o professor tem direito e obrigações. As insatisfações não devem e não podem ser descarregadas aos alunos, que não têm nada a ver com o problema. A maior força do professor, ao representar a instituição escolar, está em seu desempenho em sala de aula.

Portanto, ele não deve simplesmente fazer o que bem entender, sobretudo perante as indisciplinas dos alunos. Numa escola cada professor actua como bem entende, haverá, com toda certeza, discórdias dentro do corpo de professores e os alunos saberão aproveitar-se dessas desavenças. É importante que os professores adoptem um padrão básico de atitude perante a indisciplina mais comum, como se todos vestissem o mesmo uniforme comportamental. Esse uniforme protege a individualidade do professor.

Quando um aluno ultrapassa os limites, não está simplesmente desrespeitando um professor em particular, mas as normas que regem a escola. O aluno como peça chave da disciplina na escola e o sucesso do processo de ensino e aprendizagem. Veremos que, a maior dificuldade encontrada para estudar é a falta de motivação. Os melhores alunos são os que acabam aprendendo mais, e os piores, menos. Em termos de sabedoria, quanto mais se sabe, mais se quer aprender. Em termos de ignorância, quanto menos se sabe, mais se pensa que não é preciso saber mais.

Contudo, o ambiente também conta, porque este interfere na disciplina e comportamento. As condições de salas de aula, o calor, a falta de higiene, as teias de aranha que não são tiradas […], interferem na disciplina da escola. A condição ambiental é o que mais interfere no estado psicológico dos alunos. Deve-se levar em conta, que em uma sala de aula há diversos tipos de alunos. Entre eles há um grupo, que às vezes, é a maioria, são os alunos saudáveis, os que não preocupam o professor, os que estudam para aprender, que tem objectivos pela frente. Com estes o professor precisa aproveitar das suas capacidades para tornar a sala de aula mais funcional. Estes podem ajudar a reconduzir os outros, menos interessados, a se envolverem e dedicarem nas aulas. Para isto, se requer do professor, três factores básicos: a) aspectos pessoais (simpatia, higiene pessoal, elegância, educação e costumes, etc.); b) capacidade de comunicação; e c) conhecimento da matéria.

Aquele abraço aos colegas de trabalho e profissão!

Por Eduardo Fernando

Docente de Introdução a Filosofia

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