SELO: O endividamento no contexto da vida social - Por: Eduardo Marcelo Fernando
Vozes - @Hora da Verdade
Escrito por Redação  
Quinta, 22 Novembro 2018 08:11
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Nós levamos a nossa subjectividade a sério quando se configura sobre a base da dívida. E, nós sobrevivemos e nos endividamos, e vivemos sob o peso da responsabilidade em relação à dívida. Autor desconhecido.

Quando dizemos que a vida foi posta para trabalhar, é precisamente a figura do endividado que temos em mente. Ter dívidas torna a condição geral da vida social e porque não com sua influência na saúde, na educação, no pagamento da renda, da água, da energia, do arroz, da farinha de milho, do transporte, da escola dos filhos para outros e dentre várias outras despesas que não cabem mencionando-as neste espaço do @Verdade. Não há como construir uma casa sem se endividar, nem ao menos mobiliar uma que já exista. Muitas vezes, é difícil chegar ao fim do mês sem dever ao colega, ao agiota de 30%, ao vizinho, etc. Aliás, eis um desafio: encontrar alguém sem dívidas parceladas em suaves prestações, sem juros, sem entrada, sem empréstimos consignados e/ou compras à perder de vista.

Somos todos endividados, na medida em que o efeito da dívida é fazê-lo trabalhar arduamente, dia após dia esperando quitá-las no fim do mês, mas percebendo-se impossibilitado de viver sem contrair mais algumas no caminhar do nosso viver temporário neste planeta quente sem robustez de sua criação. O lema aqui é um só: somos responsáveis por nossas dívidas como livres consumidores e devemos pagar pelos nossos pecados, na senda de bons cristãos que domingo apos domingo entram pela estandarte porta da igreja e a sexta da mesquita.

Uma ética do trabalho muito semelhante à crença no livre arbítrio, tão necessária aos que acreditam no futuro pós salvação divina, qual será o resultado se pecarmos e não honrarmos nossas dívidas? Culpa e cassação de direitos, é claro! O que é curioso, no entanto, é que neste caso nossos pecados são a necessidade de ter uma casa, água, comida e algo mais, a árvore de natal, pelo menos sem presentes em volta; porque iremos ver pela Tv pequena. Visto que, o cheque especial já não parece tão especial assim. Para tanto, ainda na senda do débito se perpetua indefinidamente como forma de controlo (…até o SIMO se cancela…). Para além dos mecanismos disciplinares, encontramos hoje espalhados na vida social, dispositivos de controlo, que actuam sobre cada um com vista aos mesmos efeitos: manter, conservar, fiscalizar, inspecionar, dirigir, superintender a todo devedor. Mas não de qualquer maneira, da maneira mais inteligente possível, isto é, fazendo com que cada um de nós seja a expressão de suas amarras, a roda dentada que faz todo o sistema funcionar o sistema de grandes transações. Assim sendo, "O endividado é uma consciência desventurada que transforma a culpa numa forma de vida". Forma de vida que interessa apenas aos que estão por cima, ou seja, poucos. Fabricar uma subjectividade como a do endividado, interessa a quem mais lucra com a lógica do credor/devedor – os bancos e as instituições financeiras? O endividado "nasce do buraco da crise económica estruturada", aberto pela enorme distância entre ricos e pobres, entre os que residem do Rovuma ao Maputo, do Zumbo ao índico, traduzido em um fecundo fruto da pervertida desigualdade social que dura desde que o colono se foi.

Adicionalmente o capitalista acumula riqueza basicamente por meio da renda, não do lucro; de modo mais frequente, essa renda assume a forma financeira, sendo garantida por meio de instrumentos financeiros. Pela mesma razão é quando a dívida entra em cena, como uma arma para manter e controlar a relacção de produção e exploração. De novo, veremos que hoje, a exploração se baseia principalmente não na troca (igual ou desigual), mas na dívida, ou seja, no facto de que a maioria da população está sujeita – deve trabalho, deve dinheiro, deve obediência – ao 1% restante. Que se diga!

É um processo de captura. Do quê? Ora, da própria VIDA! Nossas necessidades básicas estão cada dia mais distantes da nossa relação natural com o mundo, nossas vidas foram monetizadas. Precisamos tomar de empréstimo o que era nosso de saída. Estamos falando de água, comida, abrigo, mobilidade… Perdemo-nos em contas para pagar. Por outro lado, não fomos privados de nada, fomos afastados. Catracas, travas, cancelas, portões, caixas registradoras estão agora em nosso caminho. Mas e se não pagássemos a dívida e se a pagássemos?

“Se você deve $100 ao banco, o problema é seu; se você deve $100 milhões, o problema é do banco” – John Paul Getty.

Toda revolta nasce com uma recusa, um grande Não! Não vamos pagar, não queremos entrar neste esquema, não daremos nosso dinheiro a você! Quando a dívida assume proporções absurdas, o endividado percebe que todas as riquezas foram expropriadas do fruto de seu trabalho. O chefe chega de helicóptero e o plebeu de my love.

Por outro lado atrás do NÃO, e é isso que muitos têm dificuldade para perceber, esconde-se um SIM. Da vontade do não nasce da falta, é a própria força que cresce, se apropria, se recria. Assim sendo, destruir a força do dinheiro e a servidão da dívida externa ou interna, ou ainda do agiota e do familiar, do amigo e do compadre e até do colega que abre alas para uma busca por uma vida baseada não na coerção ao pagamento, mas numa subjectividade fundada na cooperação e na produção comum de riquezas, que pertencem a todos. Não sei se pertence mesmo a todos, excluindo assim, o direito de ser de todos.

Contudo, a negação do endividamento e da dívida é a busca por um novo modo de relacionar-se, é a procura por aliados, pelos altos alpes do oriente médio é o desprezo pelo processo que leva uma vida a girar em torno do valor negativo de sua conta bancária. Recusar o endividamento e a dívida…fazer um uso criativo da própria força de trabalho; eliminar o valor de troca e assumir o valor de uso; são pequenos passos para uma grande mudança, um antídoto para expurgar o corpo de um veneno cotidiano. É no processo de ressignificação do valor monetário que reside a possibilidade de uma vida não monetizada rumo a uma Paz perpétua, já dizia o filósofo Kant.

Ut amet!

Por: Eduardo Marcelo Fernando

Docente de Introdução à Filosofia.

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